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Apresentação |
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Festa, sinônimo de bebida, belisquetes, boa conversa e boa música, era com Vinicius de Moraes. O endereço da farra foi sempre o próprio poeta, que, onde baixava, tratava de descontrair o ambiente apenas para deixá-lo mais à sua feição. A cantora Miúcha acompanhou o fenômeno de perto. Cresceu ouvindo e vendo Vinicius, a cada visita, alegrando a casa dos pais dela, Maria Amélia e Sérgio Buarque de Hollanda. Com o amigo do pai aprendeu a tocar violão – agradecida, deu ao seu instrumento o nome de Vinicius. Definitivamente fisgada pela música, Miúcha viria a fazer, em 1977, com Vinicius, Toquinho e Tom Jobim, um show histórico que botou gente pelo ladrão no Canecão antes de ganhar a Europa. Essas e outras boas lembranças e lições do Poetinha, além de 14 músicas dele, duas inéditas, estão concentradas no CD Miúcha Canta Vinicius & Vinicius – música e letra, lançamento da Biscoito Fino que celebra em grande estilo a passagem dos 90 anos daquele bom amigo de Sérgio Buarque de Hollanda: Vinicius, o diplomata, poeta, compositor e, acima de tudo, festeiro.
A festa, no disco, reúne apenas canções com letra e música de Vinicius. O parceiro de Tom, Baden, Carlinhos Lyra, Toquinho, Pixinguinha, Ary Barroso, Edu Lobo, Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Antonio Maria e tantos outros também se divertia sozinho. Quem o conheceu acredita que Vinicius tenha deixado um pouco de lado o talento de melodista para, como poeta e letrista incomparável, conviver com a turma acima. Enfim, para fazer a festa com mais gente. Às canções. Tomara abre o disco com Miúcha e a filha Bebel Gilberto dividindo os vocais. Em torno das duas, os sopros suaves, o violão de João Lyra, a bateria de Carlos Bala à moda do tempo de Beco das Garrafas, sem nenhum ranço de nostalgia. Uma delícia. “A Bebel queria participar do disco e acabou que deu certinho, né?”, conta Miúcha, com aquele jeito dengoso que a gente já aprendeu a curtir nas músicas que canta. Mais grave, a segunda faixa do disco, Ai Quem me Dera, de que Miúcha dá conta sozinha, ganhou arranjos de violino para sublinhar a beleza de versos como “Ai, quem me dera terminasse a espera / Retornasse o canto simples e sem fim / E ouvindo o canto se chorasse tanto / Que do mundo o pranto se estancasse enfim”.
O tom, romântico e sem a afobação dos dias de hoje, continua com Saudades do Brasil em Portugal. A gravação que Miúcha ouviu da música era da cantora portuguesa Amália Rodriguez. O desafio, aqui, era despojar a canção da dramaticidade emprestada pela rainha do fado. “Queríamos suavizar, aliviar o drama. O Jessé (Sadock, no flugelhorn) emprestou uns sopros meio Miles Davis e o violão do João Lyra deu o toque de Portugal”, observa Miúcha. &ldquoFuncionou, você vai ouvir”. Mais tranqüila, mas não menos emocionante, foi a gravação de Medo de Amar, que Miúcha divide com o irmão Chico Buarque. “O Chico estava com a música na cabeça, a tinha cantado numa homenagem a Vinicius em Paraty. Ele gravou emocionado, entregue mesmo”, lembra a cantora.
A emoção, afinal se está tratando aqui do poeta do amor, é mais contida em Serenata do Adeus, que Miúcha divide apenas com Leandro Braga ao piano. Brilhou aqui o esquema olhos nos olhos, com a cantora acompanhada por um instrumentista e arranjador que sabe o que faz, sem, por isso, esquecer do sentimento. A receita funcionou também em Valsa de Eurídice, que, no estúdio, vingou a versão que a equipe tentou a todo custo gravar de um jeito diferente do imortalizado pelo violão de Baden Powell. Não deu outra: Miúcha gravou mais uma vez olhos nos olhos, acompanhada pelo violão surpreendentemente contido e reverente, do prodígio gaúcho Yamandú Costa.
Entre uma e outra, o disco traz duas revelações. Uma é a do lado malandro, cariocão, de Vinicius. Teleco Teco, que o poeta compôs pensando no balanço de Ciro Monteiro, traz Miúcha se divertindo ao lado de Zeca Pagodinho, herdeiro legítimo da linhagem de Ciro e Jorge Veiga. “O Zeca é como o Ciro, totalmente malandro e um gentleman”, agradece a cantora. A segunda surpresa é Georgiana, canção inédita que Vinicius fez para o nascimento da filha. “Somos amigas há muito tempo e ela achou a letra entre papéis guardados”, conta Miúcha. Os versos divertidos, em inglês, ganharam acento country com a gaita de Milton Guedes e os violões de João Lyra. Vinicius, gozador, narra o nascimento da filha em versos como “father needed a drink” e “mother needed to repose”.
A arte de dizer muito, e tocar fundo, com poucas palavras, volta a se fazer presente com Tempo Será. Aqui, Miúcha e os músicos limitam-se a deixar brilhar a verve de Vinicius: “Não perturbe o silêncio / Que o meu sofrimento / Acabou por criar/ Brinque de dar tempo ao tempo / Brinque de tempo será”. Destaque para a abertura da canção, com o violão de Lyra, e o desfecho, com o tempo passando ao som de violinos e violas. A canção seguinte o Brasil andou ouvindo por meses a fio, na hora da novela Mulheres Apaixonadas, mas, mérito de Vinicius, é o tipo da música à prova do tempo e das repetições. A deliciosa e conhecidíssima Pela Luz dos Olhos Teus é repartida por Miúcha e Daniel Jobim, neto do maestro Tom, com quem ela gravou a canção em seu primeiro disco, de 1977. Miúcha e Daniel registraram a canção nos mesmos estúdio e piano e com o mesmo técnico de gravação, o veterano Mario Jorge, que deram à luz a versão dela e de Tom Jobim.
A festa, a esta altura, já come solta. Você vai ouvir, ainda, a paixão rasgada de Encontro à Tarde, o encontro de Miúcha e Toquinho, o mais terno dos parceiros do poeta, em Canção de Nós Dois e a finíssima Cem por Cento, que a cantora descreve como “música que só poderia ter sido composta pelo homem mais elegante com as mulheres que eu já conheci”. O bota-fora fica por conta do frevo Quem For Mulher que me Siga, a outra inédita do disco, que a cantora Cyva, do Quarteto em Cy, encontrou gravada em fita cassete pelo próprio Vinicius. “Ele fez para um bloco de carnaval na Bahia, na década de 70, encomendada pelo José Jorge, filho de Jorge Amado. Cantaram por lá, mas não gravaram”, explica Miúcha.
A música acabou, mas tem mais gente nessa festa. Paulo César Pinheiro, outro dos nossos grandes letristas, sonhou com um disco só de canções que Vinicius compôs sozinho quando sua mulher, Clara Nunes, gravou Ai Quem me Dera, em 1976. Deu a sugestão ao produtor José Milton, que andou as últimas décadas atrás da voz apropriada para o projeto. Os arranjos do disco são de Eduardo Souto Neto, Cristóvão Bastos, Helvius Vilela e Leandro Braga, que, sempre caladão, não se conteve ao ouvir a gravação de Serenata do Adeus. “Acho que fiz o arranjo mais bonito da minha vida”, disse. O clima foi de festa, claro, ao longo de cinco semanas de gravação, no estúdio da Cia. dos Técnicos, em Copacabana. “A gente riu, chorou e bebeu um bocado, afinal era uma homenagem a Vinicius”, diz Miúcha. A farra, no estúdio, teve direito até a um altar erigido em tributo ao Poetinha, com foto, banquinho, garrafa de uísque e, às vezes, uma rosa. Agora a festa é sua também. |
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Faixas |
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| 01 |
Tomara
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3m34s
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| 02 |
Ai, Quem me Dera
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3m17s
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| 03 |
Saudades do Brasil em Portugal
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4m15s
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| 04 |
Medo de Amar
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4m16s
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| 05 |
Serenata do Adeus
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3m31s
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| 06 |
Georgiana
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2m20s
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| 07 |
Teleco Teco
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3m26s
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| 08 |
Valsa de Eurídice
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4m43s
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| 09 |
Tempo Será
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4m05s
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| 10 |
Pela Luz dos Olhos Teus
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2m47s
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| 11 |
Encontro à Tarde
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4m03s
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| 12 |
Canção de Nós Dois
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3m04s
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| 13 |
Cem por Cento
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4m13s
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| 14 |
Quem For Mulher que me Siga
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3m22s
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Ficha Técnica |
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Produzido por José Milton Coordenação de produção - Pedro Seiler Gravado e mixado na Cia. dos Técnicos (RJ) por Mario Jorge Bruno, exceto voz de Zeca Pagodinho - gravada no estúdio AR (RJ) por Duda Mello e assistido por Léo Moreira Assistentes de gravação e mixagem - Mauro Araújo, Sandro Rangel, Felipe Medeiros, Flavio Senna Neto e Rafael Ignacio Supervisão de estúdio - José Sartori (Magro) Masterizado por: Ricardo Garcia (Magic Master - RJ) Fotos - Cafi, exceto foto Miucha com Vinicius por Chico Nelson e foto Chico Buarque por Geraldo Rocha Projeto gráfico - Pós Imagem Design Direção de arte - Ricardo Leite e Rafael Ayres Designer - Ricardo Bezerra
Participações: Bebel Gilberto, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Yamandú Costa, Daniel Jobim e Toquinho.
Instrumentistas: Leandro Braga (arranjos, regência e piano), Jorge Helder (baixo), João Lyra (violão, viola 10, violões de aço, still guitar e guitarra), Carlos Bala (bateria), Andrea Ernest Dias (flauta), Cristiano Alves (clarinete), Dirceu Leite (clarone, flauta, clarinete e picolo), Jessé Sadock (flugel e pistona), Gordinho (tamborim e surdo), Barney (ganzá), Eduardo Souto Neto (arranjos, regência e piano), Pedro Amorim (bandolim), Bernardo Bessler (spalla), Ricardo Amado (violino), Walter Hack (violino), Paschoal Perrota (violino), José Alves (violino), Carlos Eduardo Hack (violino), Michel Bessler (violino), Rogério Rosa (violino), Jesuína Passaroto (viola), Marie Christine Springuel (viola), Marcio Mallard (cello), Yura Ramevsky (cello), Cristovão Bastos (arranjos, regência e piano), Milton Guedes (gaita), Caixinha (tamborim), Ubirany (tamborim), Zé Canuto (sax baritono), Marcelo Martins (sax alto), Sergio de Jesus (trombone), José Sadock (trompete), Jotinha (vibrafone), Jairo Diniz (viola), Durval (pandeiros), Gesiel do Nascimento (pistona), Aldine Ayres (trombone). |
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