Maogani lança ´Impressão de choro´
Por Nana Vaz de Castro
Por sua riqueza, diversidade, relevância e abrangência, o choro foi a linguagem musical escolhida pelo Maogani para seu quarto CD, patrocinado pela Petrobras e distribuído pela Biscoito Fino. Com título emprestado de uma composição do pianista Leandro Braga, Impressão de Choro traz uma visão particular do já consagrado quarteto de violões para obras que atravessam séculos e gêneros. O amplo universo do choro foi o que tornou possível a presença, no repertório, de uma quadrilha do século XIX, de valsas da primeira e da segunda metades do século XX, de uma polca do século XXI, além de choros de todos os tempos. Ou de compositores como Garoto e Hermeto Pascoal, tão distantes à primeira vista, e tão próximos quando ouvidos dentro deste contexto.
É conduzida pelas fluidas linhas do choro que se faz a audição deste aguardado CD, que tem direção musical de um dos maiores entendedores e compositores de choro, Mauricio Carrilho. É dele a faixa de abertura, “Moacirsantosiana 15”, extraída de uma série de 16 composições inspiradas na obra do mestre Moacir Santos, e uma das muitas obras inéditas apresentadas aqui. Estão presentes no disco, também em primeira mão, a primorosa valsa “Noites brasileiras”, parceria de Guinga e Paulo César Pinheiro, garimpada do baú onde passou os últimos 36 anos (!); “Ilza nº 15”, choro com a inconfundível marca sonora de Hermeto Pascoal; “Impressão de choro”, a música de Leandro Braga que tanto significou para a concepção deste trabalho; além do choro “Sinceridade”, composto por Sergio Assad especialmente para o disco. São também inéditas as obras de dois integrantes do Maogani: “Áurea”, inspirado choro-canção de Marcos Alves, que cada vez mais se destaca em sua carreira de compositor, teve a participação especial de Pedro Amorim ao violão tenor, instrumento que conseguiu agregar valor ainda maior à rica sonoridade do quarteto; e “Passatempo”, a divertida polca do gaúcho Maurício Marques, o mais novo integrante do Maogani, comprova ser possível realizar algo de produtivo durante as tediosas esperas de aeroporto nesses tempos de ´caos aéreo´ brasileiro.
Outras composições, se não são inéditas, se aproximam bastante disso por terem sido tão pouco gravadas até então – mesmo sendo seus compositores grandes mestres de nossa música. O choro “Relâmpago”, de Garoto, ganhou para este disco um arranjo que explora o virtuosismo e a sincronia a que poucos grupos instrumentais podem aspirar. O mesmo se pode dizer de “Por quê?”, de Radamés Gnattali, autor que tanto contribuiu para a expansão dos limites do gênero choro. Outra pérola é a valsa “Tristorosa”, composta por Villa-Lobos em 1910, uma época em que sua convivência com os músicos de choro do Rio de Janeiro era estreita – convivência esta que viria a moldar toda a sua produção musical.
O arranjo de “Tristorosa” foi feito de modo a contemplar a participação especialíssima do clarinetista, saxofonista, compositor e arranjador Nailor Proveta. É também a reboque das aventuras do Proveta que embarcamos para os cinco movimentos da quadrilha “Saudades de Valença”, de autoria de Joaquim Callado, conhecido como ´o pai dos chorões´. Longe de ser uma ´peça histórica´ incluída apenas como curiosidade, a quadrilha transpira uma musicalidade contemporânea a toda prova. E com certeza o jovem Ernesto Nazareth ouviu muitas quadrilhas de Callado em sua época, antes de se tornar um dos pilares fundamentais não só do choro como da música popular brasileira – e antes de compor jóias como este “Ouro sobre azul”, cuja pouca notoriedade só se pode atribuir ao número excessivo de maravilhas compostas por Nazareth.
Mas nem só de peças inéditas e pouco conhecidas forma-se o repertório. Há ainda dois choros clássicos em seus respectivos (e diferentes) ambientes musicais: a homenagem de Jacob do Bandolim ao gênio das pernas tortas, “A ginga do Mané”, presença fácil em qualquer roda de choro que se preze; e a carta em forma de choro de Chico Buarque e Francis Hime, “Meu caro amigo”, gravado no disco quase homônimo – Meus Caros Amigos – de 1976. Este último é ouvido aqui em sua versão original, com uma bela segunda parte que não foi letrada e que permanece desconhecida do público. Mais uma pepita garimpada do vasto baú do choro.
Em Impressão de Choro o Maogani mais uma vez se destaca por seus elaborados arranjos, marca registrada do quarteto, pela sonoridade característica do grupo (obtida com a junção de violões de seis, sete, oito cordas e do violão requinto) e pelas interpretações que unem a delicadeza e os cuidados da música de câmera ao vigor e à espontaneidade da música popular.
É Sergio Assad, fã declarado do grupo, que assina o texto de apresentação do CD: “Impressão de Choro é um disco muito original que retrata bem o vigor e a alma nova da qual o choro tem se impregnado nos últimos anos. Que o Maogani prossiga surpreendendo! Os ganhadores seremos todos nós, admiradores e ouvintes”.
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