Marcus Tardelli recria a obra de Guinga em cd que revela a diversidade temática do compositor
Marcus Tardelli é um solista por vocação. Quando começou a tocar violão, aos sete anos de idade, seus maiores professores foram discos e fitas, dos quais tirava intuitivamente as músicas. Autodidata, foi no convívio solitário com as melodias que se construiu o grande músico em que se transformou. Todo este talento pode ser conferido em Unha e Carne, seu primeiro disco solo, que lança pela Biscoito Fino.
Em 2001, o violonista conheceu Guinga, dando início a uma amizade fortificada pela cumplicidade musical: “Eu o vejo como meu filho, e ao mesmo tempo pai da minha música. Tardelli é o maior violonista que o Brasil produziu. É tecnicamente perfeito. Não há barreiras intransponíveis quando ele quer a interpretação mais profunda”, sentencia Guinga.
Unha e Carne começou a ser gerado em uma despretensiosa conversa entre ambos, em meados do ano passado. Tardelli se preparava para um vôo solo, enquanto o compositor pensava em gravar a sua obra. Guinga propôs então, dada a confiança mútua, que o CD de estréia de Tardelli se concentrasse em suas composições: “Eu abri mão de gravar um disco de violão com a minha obra, que era um projeto da minha vida, só pra ouvir minhas músicas tocadas por ele”, relata Guinga. E deu o aval para que o intérprete assinasse uma obra de sonoridade popular, mas clássica no requinte e na sofisticação. Entretanto, a presença de Guinga, que divide a produção musical com Tardelli, permeia todo o disco.
“As músicas de Guinga transitam entre diversos cenários musicais do Brasil. E as minhas referências são completamente díspares. Criei-me ouvindo serestas, escutei samba, choro, baião, bossa nova, jazz, música erudita. Pra mim tudo é melodia, harmonia, caminhos diferentes de aprendizado”, explica Tardelli.
O disco começa com uma visceral interpretação de Baião de Lacan. O lado mais profundo do compositor pode ser conferido nos arranjos das valsas Igreja da Penha, Cine Baronesa e Constance. Capital (1ª música inédita do álbum), Dichavado e Cheio de Dedos são choros de alma urbana em arranjos suingados que evidenciam Guinga em sua expressão mais carioca, assim como Mingus Samba. A valsa Unha e Carne não constava na seleção inicial. Durante as gravações, Guinga, extasiado com os arranjos e com a interpretação de sua obra, a compôs e dedicou a Tardelli. “Essa música torna sagrado nosso encontro. É uma simples homenagem minha a ele”, explica. O intérprete a define como uma “valsa em rodopio”.
Completam o disco um medley de Baiões, que expressa de forma precisa uma face árida do Nordeste; uma pequena “suíte” com três choros intitulada Expressões de Choro, trazendo mais duas músicas inéditas (Choro-Canção e Choro-Tango) e fechando com Choro-Réquiem (esta última feita em memória da mãe do parceiro Aldir Blanc); e dois frevos, Vô Alfredo e Henriquieto.
Tardelli mostra um novo caminho para o violão, trazendo inovações técnicas em busca da harmonia perfeita, da sonoridade orquestral: “Com ele o violão ganha uma dimensão completamente nova, navegando por mares nunca dantes navegados”, explica o compositor. Ao mesmo tempo, seus arranjos respeitam a essência musical de Guinga. O álbum privilegia as várias faces de um compositor que entende como poucos a sofisticação presente nas manifestações populares do Brasil. E Marcus Tardelli sabe compreender tudo isso, tanto que arranja e interpreta, com autoria e propriedade, os meandros de uma música clássica por excelência. “Foi a vez em que tive a sensação mais forte de ter composto minhas músicas”, confessa Guinga, após ouvir o trabalho finalizado. A explicação para isso talvez seja a compatibilidade de referências e, principalmente, a compreensão mútua de suas respectivas propostas. Respeito e cumplicidade artística são as bases cruciais do disco.
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