|
Marcelo Costas – A Música de Astor Piazzola
Este disco representa um marco. É um trabalho generoso, exuberante, emocionante. Marcelo Costas ama a música de Astor Piazzolla e é, por sua vez, um músico estudioso, capaz, inquieto. Não foi fácil para ele chegar a um estúdio e ganhar a confiança dos colegas que se colocaram às suas ordens, esperando que ele levantasse sua batuta. Tocar Piazzolla não é para qualquer um. Com os arranjos de Marcelo nas estantes e a responsabilidade de enfrentar tamanha aventura, começaram os ensaios. No momento da gravação o espírito e o talento de todos avançavam na mesma direção. O eterno milagre da música os convocava.
Neste século XXI, no entanto, ao fundo se escutam vozes dissonantes. Alguns músicos e comentaristas argentinos querem nos fazer acreditar que a música de Piazzolla foi escrita para ser tocada somente por ele (seu bandoneon e seus solistas) e que é um caminho fechado para o resto do universo. Caso essa premissa esteja certa, é fundamental perguntar o que fazem Gidon Kremer, Al Di Meola, Yo-Yo May e Gary Burton nesta história. Para não citar, além disso, tantos músicos argentinos de tango que tocaram e tocam as partituras piazzoletianas com singular competência.
É possível que a ideia dissonante tenha nascido da mediocridade de muitos músicos, alguns infelizmente jovens, que não são inovadores, mas sim incapazes. Para o mundo, apregoam um amor ao tango fora dos moldes de Piazzolla, mas a verdade é outra: somente se sentem seguros em um certo cenário, tocando tango sem riscos.
Marcelo Costas aparece para colocar as coisas em seu lugar. Nascido em Avellaneda (Argentina), músico por amor aos sons de Buenos Aires e do tango, radicado em Amsterdam (Holanda) para crescer como pianista e fagotista profissional, cidadão do mundo, um dia se perguntou por que na Europa tocava-se Piazzolla com todas as formações possíveis, sem complexos e sem que fosse necessária uma carteira de identidade argentina. A resposta é este disco nascido de sua idoneidade profissional e de um trabalho minucioso que realizou com partituras e gravações (de Piazzolla) que foram adaptadas e/ou reorquestradas para os timbres inovadores da Big Band Tango.
Para que não ficassem dúvidas quanto a seu objetivo, Costas veio gravar seu disco em Buenos Aires. Aqui está seu produto artístico. Depois de escutá-lo muito, me arrisco a dizer que se trata de um trabalho original. E que o gênio de Astor Piazzolla, por sorte, está mais presente e vivo do que nunca. Como deve ser.
NATALIO GORIN (*)
(*) jornalista e escritor, é autor de Astor Piazzolla-Memórias, com edições em espanhol, italiano, alemão, inglês e francês.
|