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A Vez e a Voz da Palavra.
Mauro Aguiar e a poética de um transeunte em devaneio.
Por Izabela Sgarbi ( jornalista )
Mauro Aguiar lança seu primeiro CD, “Transeunte”. Parceiro de Guinga, Zé Miguel Wisnik, Zé Paulo Becker, Mário Sève e muitos outros compositores, o letrista mostra o seu lado “cantautor” acompanhado de um timaço de convidados e músicos de primeira linha. “Sou realmente filiado e afilhado daquela que se convencionou chamar MPB, mas não de uma MPB ancorada no passado e sim de uma que acolhe o que há de mais libertário: a diversidade”, diz. Produzido por Mário Sève e com arranjos do próprio e de Daniel Santiago, Rafael Vernet, Guinga e Alain Mallet, o CD revela-se um instantâneo da produção autoral de uma nova geração e ao mesmo tempo um mosaico de estilos cuja argamassa é a poesia e a voz íntima de quem fez.
“Mário me alertava várias vezes durante a feitura: - procure sua verdade na música, o que vier daí terá força própria - Foi isso que me norteou”, recorda.
O disco inicia com “O Salto” (Edu Kneip e Mauro Aguiar). Uma introdução ruidosa, quase atonal, simula o Largo da Carioca de onde surgirá, pouco a pouco, o protagonista. Inspirada no Malabarista Xangô, que ali fincava seu “aro em flor” de “quatorze facas” de cozinha e “ameaçava” incessantemente saltar para a morte. Um samba épico de final suspenso no ar.
Em seguida vem “Sambaqui” (com Kalu Coelho) que versa sobre as “sem razões” do samba, envenenada pela Gaita de Gabriel Grossi e pela cantante cuíca de Esguleba. Uma espécie de preparação para o anti-samba “Pagode Jazz Sardinha´s Club ( Eduardo Neves, Rodrigo Lessa e Mauro Aguiar). Quase um clássico da noite lapiana, esse petardo que já foi gravado por Zeca Pagodinho e cantado por Leila Pinheiro, ganha aqui uma roupagem “cool”, com destaque para o diálogo entre Mauro e o trumpete tonteante de Jessé Sadoc.
O tom introspectivo apenas tangenciado na faixa anterior atinge seu clímax em “Os Olhos da Cara” (Guinga e Mauro Aguiar). Paula Santoro, também preparadora vocal do CD, empresta sua belíssima voz à canção na companhia dos precisos, piano de Rafael Vernet e violão de Daniel Santiago. É emocionante e sublime acompanhar o mergulho de uma mulher em seus meandros de amor e sonho, quando é a inspiração de Guinga e Aguiar que nos conduz!
Única canção na qual o letrista arrisca exibir seus dotes de melodista (com a parceira e comadre Kalu Coelho), “Canária na Área” ousa fazer do termo meio pejorativo, “Canária”, um elogio ao ofício de cantar e à magia que as cantoras exercem no público e mais especificamente nos compositores. Por sinal, em seguida outra cantora, Marianna Leporace divide brilhantemente com Mauro o bem humorado Fox-trot “Dreams e Mentiras”(Edu Kneip e Mauro Aguiar), com direito a arranjo de madeiras de Mário Sève conduzido pelo elegantíssimo clarinete de Rui Alvim.
Continuando o itinerário da ilusão, “Onírica”, valsa com João Nabuco, propõe a felicidade da leveza em contraponto ao mundo pesado da realidade. Os tons são velados e levados na valsa pelo soprano soprado por Mário Sève. Sem pressa de acordar.
Salsa já gravada por Ney Matogrosso, e incluída no roteiro de seu recente show “Beijo Bandido”, “Incinero” (com Zé Paulo Becker) aqui aparece mais crua, amparada na percussão de Marfran e trazendo uma novidade: a versão em espanhol da cantora e poetisa argentina Cecília Stanzione, conviva que literalmente rasga o verbo num duo intenso com Mauro.
Do Caribe para o Sertão. “Sertão do Vale”, também com Becker, homenageia João do Vale e dá uma guinada no roteiro em direção ao Brasil profundo. Marcelo Caldi tece habilmente dois acordeões para que Mauro cante esse aboio-baião.
Baião que encontra em Bárbara Mendes uma intérprete arretada e inovadora e em Lula Galvão um escudeiro perfeito, mandando o dedo. Novamente com Guinga, Mauro desnuda as motivações díspares do delírio e transfere o Rio de Janeiro para o Cariri sem pau-de-arara, em “Baião da Guanabara”.
Olho D`água, rancheira que Mário Sève vislumbrou nos versos de Mauro, discorre sobre o tempo e seus paradoxos. Lui Coimbra com violões e Cellos, Zé Paulo Becker na viola caipira, Edu Sjaznbrum na percussão e Paula Santoro nos vocais, injetam alma brasileira em doses perfeitas em nossas veias.
Se uma é alma, a outra é corpo. O corpo solto e suado do frevo encontra em “Calunga” (Xande Fróes e Mauro Aguiar) um lugar para se espalhar sem freio.
Aos 45 do segundo tempo, um gol de placa: “Temporã”, mais uma inédita com Guinga. “Guinga me sugeriu uma fábula brasileira baseada em “Pedro e o Lobo”, misturei as coisas e vieram sabiás e guarás metafísicos!”, ri. Aqui é sacramentada a parceria que, segundo Mauro, é causa e conseqüência da sua trajetória: “precisava cantar ao lado do mestre, ao lado do irmão. Foi um desafio e um sonho realizado.”
Para quem não acreditava em mais um tento, um tento e tanto. Edu Krieger dá o ar de sua graça num acalanto com letra de Mauro “Nana, Nina, Não”. “ Fiz para Nana Caymmi cantar”, entrega. Canção de ninar ausência, canção de ninar esperanças. Cristina Braga, com sua harpa, presta auxílio luxuosíssimo e Marcelo Lobato ( dO Rappa ) ao vibrafone finalizam essa viagem da voz poética de Mauro Aguiar, transeunte em devaneio.
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