A grande maioria dos arranjos desse disco têm por base o Cancioneiro Chico Buarque (Jobim Music, 2008). Falar em “arranjos” é estritamente correto, uma vez que todas as músicas foram adaptadas para violão solo; mas o espírito está mais para o contrário. De modo análogo ao disco anterior, Jobim Violão,o esforço aqui foi mostrar melodia e harmonia do modo mais direto, sem variações, ornamentos e outras contribuições do violonista. Os arranjos estão mais para “anti-arranjos”: canções despidas, que o violão vem mostrar na intimidade.
Assim como em Tom, o efeito pode ser surpreendente. Lá eram os mil e um detalhes escondidos em músicas que a gente achava que conhecia tão bem. Aqui o caso é outro. Nem todo mundo pensa em Chico como um artesão da composição, na linhagem justamente do maestro soberano. Muito por conta de ele ser o artesão da poesia, o que ninguém deixa de reconhecer, nem sempre a arte da composição aparece em toda sua riqueza. Mas sua obra mais recente – com destaque para os três últimos discos, Paratodos (1993), As Cidades (1998) e Carioca (2006) – ressalta um grau de invenção na construção de melodias, no encadeamento das harmonias e na relação entre letra e música que de modo mais ou menos arrojado já estava em tantos clássicos do Chico desde a década de 1960, embora nem sempre se percebesse isso, até por conta do seu apelo. Esses discos nos ensinam a ouvir todo o resto da sua obra com outros ouvidos.
Como ele sempre compõe canções – quer dizer, músicas em que a palavra cantada é crucial – e como sempre teve o dom de fazer a poesia coincidir com o ritmo da fala, talvez cause surpresa perceber a originalidade excêntrica de melodias como as de “Aquela Mulher” (incrivelmente cromática, mas tão espontânea quanto um samba de Noel Rosa – outro mestre da prosódia musical) ou “Embebedado” (caso único de uma melodia que Chico mandou para um parceiro pôr letra, e a mais “vanguarda paulista” de suas composições), para ficar na primeira e na última faixas do disco.
Muita coisa pode até soar estranha numa primeira audição, como o dissonante acorde maior-menor em “Soneto” (a mais antiga aqui, de 1972) ou a forma contínua, sem repetições, de “Porque Era Ela, Porque Era Eu” (a mais recente, de 2006 – cujo título vem de uma frase do ensaísta renascentista Montaigne, devidamente naturalizada). Outras talvez só ganhem estranheza em audições repetidas, incluindo algumas das mais conhecidas, como “Mil Perdões” (uma das mais jobinianas, toda construída a partir de uma célula mínima: dois semitons pra cima, um tom pra baixo, um quase nada que vira quase tudo), “Tatuagem” (com suas cruciais oscilações melódicas no final de cada estrofe, cada vez diferentes) e “Futuros Amantes” (suspensa naquele indefinível espaço entre os dois primeiros acordes, assim como os amantes estão suspensos num indefinível tempo da paixão adiada).
Cortes súbitos de harmonia ou melodia muitas vezes só serão compreendidos com a letra na cabeça. Veja-se “Suburbano Coração” (e a transformação inesperada em “Lustres se acenderão” ou “Louças se partirão”), “Iracema Voou” (com a harmonia cromática espelhada: para cima na partida, “Iracema voou”, e para baixo no fim, “Iracema da América” – assim como o nome da reencarnada protagonista alencariana é um anagrama de si mesmo: Iracema/ América), ou “Romance” (com a frase irregular em “Fique alguma tonta, uma dublê”). Por isso mesmo as letras vêm impressas nesse encarte, para serem mentalmente entoadas, senão cantadas mesmo, a gosto do ouvinte.
Ninguém como Chico leva o legado musical de Tom Jobim adiante. Mas ele não está sozinho, muito antes pelo contrário. Três parceiros dão a medida da companhia: Edu Lobo (com três canções que, sem favor nenhum, têm de entrar na lista das mais impressionantes criações da nossa música popular), Francis Hime (que deveria ganhar a medalha de modulação, só pelo que se escuta em “A Noiva da Cidade”: introdução – o acalanto infantil – em mi menor, depois a canção em lá maior, e então a coda – voltando aos acalantos – em fá maior, um esquema que não se acha nem na sinfonia mais labiríntica) e Luiz Cláudio Ramos (maestro eleito de Chico, arranjador de seus discos e shows, co-autor de “Outra Noite”, espécie de “noite transfigurada” em que o poeta Chico soa inusualmente próximo do romancista autor de Budapeste).
Nem ele, nem nós. O mínimo que se pode dizer é que a companhia da música de Chico Buarque tem sido, ao longo de décadas, e para tantos de nós, um privilégio entre os privilégios de ser brasileiro, falar português, ouvir a música popular que se faz no Brasil. Vestígios de estranha civilização, sem dúvida. Mas como são bonitas as canções.
Arthur Nestrovski
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