| Melhor Álbum Instrumental
Lua Cheia - Mauro Senise Toca Dolores Duran e Sueli Costa
Mauro Senise [Biscoito Fino]
MAURO SENISE lança novo CD:
Lua Cheia – Mauro Senise toca Dolores Duran e Sueli Costa
(Biscoito Fino)
Dois caminhos levaram Mauro Senise a Lua Cheia. O primeiro, antigo desejo de gravar com seu quarteto alguma melodia de Sueli Costa. O segundo, as repetidas audições do CD em que Nana Caymmi canta canções de Dolores Duran. Nasceu aí a idéia de unir as duas principais mulheres compositoras do Brasil num trabalho que a boa música estava devendo a elas.
– Sueli tem muito de Dolores, a mesma sensibilidade, a mesma qualidade melódica – observa Mauro.
Confessando-se um músico permanentemente seduzido pelas baladas (gênero em que tanto Sueli como Dolores sempre brilharam), Mauro pensou logo num CD como o que dedicou a Edu Lobo: belas melodias para serem entregues às mãos hábeis de Gilson Peranzzetta, pianista, compositor ele próprio e arranjador dos mais completos neste país de músicos completos.
– Uma vez escolhido o repertório que me cabe arranjar – diz Gílson, – meu primeiro passo é tocar cada tema uma, duas, várias vezes, até senti-lo como se fosse meu. É a partir desta falsa sensação de posse que eu penso no arranjo, na harmonização, na instrumentação, sempre tendo em conta que a estrela do espetáculo é a música. Não se pode intervir em sua essência.
Mauro lembra que Gílson, velho parceiro, está sempre em sua casa tratando do mesmo assunto: música. Às vezes se reúnem para tocar, por exemplo, Debussy. Às vezes para discutir em cima dos arranjos básicos de Gílson. Mauro faz sugestões: “Que tal uma flauta em sol aqui?”.
Sueli ouve Mauro falar de flauta e recorda que, em seu primeiro LP, de 1975, é ele quem está na flauta de Dentro de mim mora um anjo. E que é de Gílson a bela introdução de Alma, na gravação de Simone. Além disso, os três já estiveram juntos nos melhores tempos do Projeto Pixinguinha. Assim, a história do CD é um pouco o reencontro com dois velhos amigos. E com Dolores também, embora nenhum dos três a tenha conhecido.
A escolha do repertório teve as dificuldades costumeiras: muito material de primeira para selecionar meros 70 minutos. De Dolores, estão no CD Olha o tempo passando, O que e que eu faço, Fim de caso, Idéias erradas, A noite do meu bem e Por causa de você, esta, cantada por Olívia Hime, quebrando o conceito instrumental do disco. O que é explicável.
– Na verdade, o conceito é quebrado em dois pontos: neste, o da faixa cantada, e no que diz respeito às baladas – conta Mauro. – Queríamos mostrar o maravilhoso lado letrista de Dolores.
– Não podíamos fazer um disco só de baladas – diz Gilson. – Em show, principalmente, o público sempre exige temas mais ligeiros, mais suingados. São os casos de Nem uma lágrima e Idéias erradas.
Mauro acrescenta:
– Há também o caso das faixas longas, válidas em show, mas não em disco. Gravamos Lua Cheia em dois dias. Depois vimos que o tempo total era de mais de 80 minutos. Gílson teve de cortar algumas idéias aqui e ali. Tivemos de deixar de fora um medley de canções de Dolores que talvez caiba nos shows.
Mauro se diz um “ansioso do bem”. Tem sempre pressa para fazer as coisas, mas uma pressa que jamais interfere na qualidade. Em muitas ocasiões, no carro, a caminho de um show, vai pensando em detalhes a mudar ou a acrescentar em seus solos. É mais ansioso, certamente, que os parceiros de quarteto: Itamar Assieri (piano), Ivan “Mamão” Conti (bateria) e Paulo Russo (baixo).
Sueli é o oposto. Calma, serena, a fala pouca e mansa de quem sabe que cada palavra vale muito. Se lhe perguntam como escolhe os parceiros letristas (gente do primeiro time como Abel Silva, Cacaso, Tite de Lemos, Vitor Martins, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro), responde que não escolhe nada, ela é que é a escolhida. Nascida em Juiz de Fora numa família musical, nunca pensou em ser compositora. Aprendeu a tocar piano antes de aprender a ler e, quase sem sentir, começou a compor.
– Foi tudo muito rápido – lembra. – Quando vi, ganhei dois festivais e já estava no Rio, compondo. A música é que me trouxe. Eu e o meu violão, com o qual me apresentava.
Certa tarde, ao vê-la tocar piano tão bem, Abel Silva perguntou-lhe por que, nos shows, só ia de violão.
– Não sei, acho que era porque, no piano, ficava de costas para o público - considera. – Mas uso o piano para compor.
Mauro interfere para revelar que a Sueli pianista está no CD acompanhando-o em Sonho, música inédita que ela compôs especialmente para o CD. Ela mesma conta como foi.
– Durmo muito tarde. Pouco depois de Mauro me falar do projeto, ouvi dormindo uma voz de mulher. Acordei, não vi ninguém e voltei a me deitar. E a melodia me veio inteira. Como já perdi várias assim, por deixá-las para depois, fui logo para o piano, toquei, escrevi e liguei para o Mauro.
Pois Mauro não só vibrou como decidiu que Sueli seria a pianista no CD. Tudo com muita emoção. Sonho se junta a Cão sem dono (faixa que abre o disco com um espetacular arranjo de cordas de Gilson), Dentro de mim mora um anjo, Nem uma lágrima, Medo de amar # 2, Alma e Jura secreta.
Mas Sonho não é a única surpresa do CD. Mauro não resistiu a incluir outra quebra de conceito: uma gravação não comercial de Dolores Duran, acompanhada pelos violões de Baden Powell e Mão de Vaca e pelo acordeom de Chiquinho em How high the moon. Dolores dá um show de interpretação vocal, num scating à Ella ou à Sarah, a que, muito sutilmente, Mauro acrescentou seu sax alto. Tudo a ver com Lua Cheia.
João Máximo
|