DOLORES DURAN entre amigos
Biscoito Fino lança CD inédito da compositora cantando
Quando, em 24 de outubro de 1959, a morte a surpreendeu dormindo no sofá-cama do apartamento que alugava em Ipanema, Dolores Duran tinha 29 anos. Estava na plenitude de seu potencial artístico e de seu impulso criador. E é como autora de clássicos como A Noite do Meu Bem, Fim de Caso, Castigo, Por Causa de Você e Estrada do Sol – as duas últimas em parceria com Antônio Carlos Jobim – que é lembrada e cultuada até hoje.
Da Dolores intérprete, porém, pouco ou nada se fala. Muito possivelmente porque boa parte dos registros que deixou em oito anos de atividade fonográfica (1951-1959) não retrata, em sua inteireza, a cantora que foi. Dotada de um ouvido absoluto, Dolores gostava mesmo era do “jogo de cena e contracena” com seus pares. De preferência, podendo compartilhar com eles as delícias de um repertório escolhido ali, no ato, sem aviso prévio.
O grande mérito do CD Dolores Duran entre Amigos, que a Biscoito Fino lança agora por ocasião do cinquentenário de sua morte, é justamente disponibilizar um pequeno tesouro arqueológico: um conjunto de dez gravações do final dos anos 50 que flagra Dolores no auge de sua forma, em encontro espontâneo, despretensioso e informal com ninguém menos que Baden Powell, Manoel da Conceição (o Mão de Vaca) e Chiquinho do Acordeom. Em clima de jam session, com muito improviso instrumental e scat singing, Doloresdesfia um repertório primoroso jamais registrado por ela em vinil, que inclui standards da música americana, como How High the Moon, Cry me a River e Cheek to Cheek; um clássico da canção francesa(Hymne a L’Amour); e pérolas do samba-canção de seu tempo, como Neste Mesmo Lugar, de Klécius Caldas e Armando Cavalcânti, e Marca na Parede, de Ismael Neto. Documentado em fita analógica de rolo, o encontro histórico ocorreu entre 1958 e 1959 durante um sarau na casa de Geraldo Casé – um dos pioneiros da televisão brasileira, e colega de Dolores na TV Rio, onde atuou em programas como o célebre Noite de Gala, além de conduzir ela mesma Visitando Dolores.
De quebra, Dolores Duran entre Amigos traz três faixas-bônus, de grande valor documental. Captadas por um gravador em fio de aço, em meio a cantatas promovidas pelo casal Raul e Helenita Marques de Azevedo em seu apartamento na Avenida Rui Barbosa, diante da vista deslumbrante do Pão de Açúcar, duas delas surpreendem Dolores Duran no início de 1949, meses antes de adotar seu nome artístico e começar a cantar profissionalmente no palco da elegante boate Vogue e nos microfones da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Às vésperas de completar 19 anos, conhecida ainda pelo nome de batismo, Adiléia, ela aparece acompanhada ao piano por Jacques Klein em Body and Soul, um dos maiores sucessos do repertório jazzístico,e no samba-canção Eu sem Você, do então estudante de Arquitetura Billy Blanco. A terceira faixa-bônus traz o samba Praça Mauá, que seria lançado pela própria Dolores em 1955, em seu primeiríssimo registro, de 53, quando acabara de ser composto por Billy Blanco.
Em poucas palavras, meio século depois de sua partida, a Biscoito Fino brinda o público com uma oportunidade única de ouvir Dolores Duran no exercício pleno do instrumento que dominava como poucos: a voz.
Texto:
Angela de Almeida
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