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Estudando a Bossa - Nordeste Plaza
Tom Zé [Biscoito Fino]
Estudando Tom Zé
A carreira de Tom Zé teve início nos loucos anos 60, época em que colocar um “disco na vitrola”, ligar um rádio ou TV, era motivo de surpresa, de beleza nova, provocadora. Em todos os países do mundo a criatividade transbordava pelos meios de comunicação e o público consumidor queria sempre mais, seja na área da MPB, do rock, do jazz ou da música de concerto.
Dizer que Tom Zé “participou” daquele momento histórico, é injusto. Ele foi, isto sim, um dos principais responsáveis na época pelo que houve de mais revolucionário e talentoso em nossa música. E, por um acidental e saudável contato com um grande músico norte-americano, seu trabalho espalhou-se com facilidade mundo afora, provando que não se tratava de “gracinhas” de um baiano perdido no caos paulista, mas de obra de expressivo estofo universal.
De lá para cá, não só no Brasil, mas na maior parte do mundo tido como civilizado, muita coisa mudou. Parece que o deslumbrante progresso da máquina de comunicação eletrônica agiu como inimigo da criatividade musical. Quanto mais iPods, piores são os repertórios consumidos. Mesmo grandes artistas brasileiros, que participaram com grande intensidade daqueles excitantes anos 60, ou se retiraram ou passaram a fazer uma música, às vezes bela, mas sem maiores propostas.
Este não é o caso de Tom Zé. Sua inquietante mente centrífuga e centrípeta nos revela novas idéias sonoras, comportamentais, artísticas a cada ação sua, seja num palco, num disco ou num pronunciamento. Aquela irreverência típica do Tropicalismo que lhe deu origem, está presente hoje em seu comportamento cultural mais que nunca.
Mais uma surpresa Tom Zé nos oferece agora com seu CD Estudando a Bossa para a Biscoitofino, verdadeiro QG da música inteligente e criativa brasileira atual. Nesta época em que as pessoas contemplam e praticam a Bossa Nova, quase como um refúgio espiritual saudosista de algo criado há 50 anos atrás, pleno de melodias, graça, beleza, talento, descontração, otimismo, charme, refinamento, qualidade musical, provocação, autenticidade etc, etc, ele nos revela a mais original leitura daquele momento artístico, a partir de uma ótica bem humorada, verdadeira crônica de um passado inesquecível, com vistas para futuro.
Tudo que serviu de matéria prima da Bossa Nova está deliciosa e anarquicamente presente em seus versos, atuações vocais, arranjos, toques de violão, maneirismos, dialetos, sotaques, expressões; do nome dos participantes, às palavras chaves (barquinho, sol e sal, chega de saudade, bada-badi, bada-badá, biom-bom), da citação às musas femininas a componentes essenciais, como a síncopa ou Copacabana, do panorama sonoro da época, com o samba-canção abolerado, trágico, do ninguem-me-ama/ninguém-me-quer, às polemicas despertadas pela implantação do novo gênero musical e assim por diante.
Esse verdadeiro documentário sonoro, bem século XXI, de um espaço musical inesquecível e imorredouro de nossa alma, vai certamente nos levar a estudar Tom Zé mais uma vez, como ele estudou para nós, à sua moda, a Bossa Nova.
Maestro Júlio Medaglia
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