Ponto de Partida – Sérgio Ricardo
SÉRGIO RICARDO FAZ INTERCÂMBIO COM NOVA GERAÇÃO E LANÇA CD COM TOQUES CONTEMPORÂNEOS
Sérgio Ricardo está de volta. Patrocinado pela Petrobras e distribuído pela Biscoito Fino, o cd "Ponto de Partida" é uma espécie de comemoração dos quase 60 anos de carreira do artista, e traz releituras de suas músicas mais representativas. Para o projeto, o compositor e cantor se cercou de jovens e talentosos instrumentistas e deste intercâmbio nasceu o disco com 15 faixas praticamente inéditas, com arranjos e harmonia ousados. “Sem desmerecer os outros, este é meu melhor disco. Saiu exatamente como eu quis", comemora Sérgio.
O toque moderno ficou por conta dos arranjos contemporâneos compostos pelos irmãos Alain Pierre (violões), Alexandre Caldi (sopros) e Marcelo Caldi (piano e acordeon), filhos do consagrado pianista Homero de Magalhães. “Esse trabalho foi uma descoberta mútua entre gerações. Trocamos idéias e referências o tempo todo”, conta Alain. O Cd traz ainda Rodrigo Villa ( baixo), Naife Simões (percussão), Jean Dumas (conga), Ignez Perdigão (cavaquinho) e Iura Ranevski (cello). O naipe de talentos fica completo com as participações especiais de Nicolas Krassik (violino), Edu Krieger ( violão sete cordas) e Hamilton de Hollanda (no bandolin).
Outra particularidade do CD "Ponto de Partida” é que reúne, pela primeira vez , todos os filhos de Sérgio Ricardo: Adriana e Marina Lutfi, nas vozes, e o caçula de 17 anos, João Gurgel, no violão. Marina é também a produtora do cd e grande responsável por essa ponte do pai com a juventude. “O bacana dessa história é que a obra de meu pai vai ser mostrada de cara nova para gerações que praticamente a desconhessem, e pelas mãos da geração atual. Esse diálogo foi essencial para esse resultado”, ressalta Marina.
Considerado um dos precursores da Bossa Nova, Sérgio Ricardo apresenta uma nova roupagem para o gênero quando este completa 50 anos, mas avisa: "Foi uma coincidência e o cd tem bossa e muito mais . “Ponto de Partida” tem também nossa africanidade bem acentuada e expande a temática por uma abrangência mais nacional. É uma mistura de ritmos, um passeio pela minha discografia e traz um pouco de tudo, da capoeira ao baião, do afrosamba às milongas, do samba canção ao choro". O trabalho é uma espécie de antologia da obra de Sérgio Ricardo e traz músicas desde 1958 (Poema Azul e Ausência de você) até os dias de hoje como Maria do Tambá. Tudo com ar de canção inédita.
O nome do Cd não é por acaso. "Ponto de partida" marca a retomada de Sérgio em grande estilo à cena musical brasileira. Conhecido pelo seu perfeccionismo e com mais de 30 discos gravados ao longo de sua carreira, este compositor e cantor de voz forte e 75 anos, comemora o resultado:
-Este trabalho é diferente de todos os outros pelo refinamento alcançado depois de muita estrada, pelo intercâmbio enriquecedor que tive com essa nova e surpreendente geração (eu sou o único cabeça branca da turma!) e por ter meus filhos junto comigo pela primeira vez. Isso sem contar que o gravei sem fumar um cigarro sequer", completa um Sérgio Ricardo totalmente satisfeito. “E agora que houve essa troca, essa pororoca de saberes, e eu bebi da fonte da juventude, ninguém me segura!
As músicas de “Ponto de partida” por Sérgio Ricardo:
BARRAVENTO - Quando vi o filme de Glauber Rocha fiquei tão impressionado que fui pra casa e criei esta canção inspirado no filme, ao jeito de Caymmi, com quem aprendera o mar e a alma do povo baiano. É uma forma de gratidão a estes dois mestres do Olimpo de nossa cultura.
FANTASMA - Inspirado no malandro “Fantasma”, mito do povo da favela do Vidigal. Era tido como um Robin Wood, no tempo em que o marginal tinha como conduta romântica integrar-se afetivamente à sua comunidade. Até hoje correm lendas a seu respeito.
CACUMBU - Não me lembro mais em que região. Beira de rio ou de mar. Sei que era um pescador que afiava seu velho facão, já tão gasto, que só lhe sobrava um fio do aço. Quer vender a faca?, perguntei. Já não é faca, amigo, agora é um cacumbu, e não está a venda, respondeu. Adorei a palavra e brinquei com ela num samba ecológico.
AUSÊNCIA DE VOCÊ - Auge da Bossa Nova. Bené Nunes reunia todo fim de semana a turminha em sua casa. Um dia Tom Jobim tocou e cantou ao piano esta minha canção. Harmonizou-a com tal beleza, que pensei que a música fosse dele. Tenho a impressão que passarei o resto da vida trocando a harmonia original para tentar me aproximar da que ele inventou naquele momento.
LÁ VEM PEDRA - A censura proibia, proibia e conseguiu romper o elo unificante do nosso processo histórico cultural. Só deixou o poder quando arrumou a casa a seu modo. Já esquecidas, algumas vozes ecoavam na distância, insistindo em levantes irrelevantes, que se dissolviam no éter, invadido por borboletas coloridas deflagradas pelos céus do país, inventando uma nova era.
POEMA AZUL - Uma das canções mais cantadas, tocadas e gravadas de minha lavra, durante o período da Bossa Nova e ressuscitada a pouco tempo por Maria Bethânia em magnífica interpretação.
PALMARES - Meu saudoso amigo Mario Cravo, o grande escultor baiano, um dia resolveu me presentear com um interminável passeio por Salvador, ensinando-me a Bahia. Igrejas, candomblés, cozinha, artistas, toda sorte de folclore. Dentre tudo, o mais chocante foi visitar a academia do mestre Bimba. Apaixonei-me pela capoeira e sempre que pude utilizei seu ritmo em meus sambas. Convidei Capinan para letrar um deles e nasceu Palmares.
ENQUANTO A TRISTEZA NÃO VEM - Durante o Menino da Calça Branca, Nelson P. dos Santos, que sem honorário, montava o filme, assinalou as entradas da trilha sonora, pondo-me a trabalhar nos temas. Imbuído do que vira durante as filmagens criei este samba como tema central. Crescia, depois de Zelão, minha vivência com o universo rico dos morros cariocas.
DULCE NEGRA - De todas as influências que teve a nossa musica, a que mais incorporei a fundo foi a negra. Assim como na literatura clássica, Don Quixote é um de meus personagens preferidos. Juntei as duas coisas e acabou nascendo a Dulcinéia negra, atrás de quem saí a galope, feito um Sancho Pança, seguindo os devaneios de meu alucinado comandante.
MARIA DO TAMBÁ - Ladeira do Tambá, é hoje Av. Presidente J. Goulart, aqui na favela do Vidigal. Por onde passam muitas Marias, rumo à praia, ao samba, à labuta diária, requebrando as cadeiras, “mexendo com o juízo do homem que vai trabalhar” .
BEIRA DO CAIS - Gosto de fazer música para cinema. Mas adoro fazer cinema em música. Fiz muitos. Um deles é esta tragédia vivida por um pobre marinheiro. Não é baseado em fato real. Mas quem sabe já não terá acontecido? Ouvi muita “milonga” e talvez por isso aparecem em minhas canções suas estruturas narrativas. A parte A descreve uma ação e a B sintetiza o conceito num refrão, para a volta a parte A com a seqüência narrativa e assim em tantas vezes quantas forem necessárias para a sua conclusão. Mas nada tem a ver com a origem Andaluza ou latino americana no contexto estético.
PONTO DE PARTIDA - Guarnieri ouviu esta canção quando me apresentei em show em Curitiba. Apaixonou-se por ela e colocou-a em sua peça, pedindo autorização para usá-la como trilha e como título de uma de suas melhores peças. Ainda fiz a trilha toda e representei um dos personagens. É outra de minhas milongas, obrigatória em minhas apresentações.
(Além de música título do Cd, nesta versão, cada um de meus filhos canta um refrão)
CONTRA MARÉ - Muitos olhares se puseram sobre mim penalizados com o meu afastamento da mídia por conta dos desmandos da censura que marginalizava os artistas contrários ao regime. Não podia aceitar tal sentimento porque salvava-me minha multifacetada aptidão para as artes e outros caminhos da criação artística me punham ativo. Fiz então este samba.
FOLHA DE PAPEL - Este samba, filho direto da Bossa Nova, também obrigatório em minhas apresentações , muito bem gravado por vários intérpretes consagrados, é das mais gratificantes respostas que tenho recebido dos colegas e público em geral.
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL - É minha música de maior impacto. Meu parceiro, Glauber Rocha, presenteando-me com a chance de musicar seu filme Deus e o Diabo, possibilitou-me descobrir minha vocação de cantador de feira nordestina, desencadeando uma vertente na minha composição, utilizada em seguida em outros trabalhos. Refiz aqui o tratamento harmônico e orquestral para tirar os temas de sua rudeza exigida pelo tom do filme, para dar-lhe uma dimensão sinfônica, sem perder sua singularidade.
Assessoria de Imprensa:
Daniela Camargo – 21.9321.2929
daniela.kvassay@gmail.com
Sérgio Ricardo:
Site: www.sergioricardo.com
My Space: www.myspace.com/sricardo
Carta do violinista e compositor Edino Krieger à Sérgio Ricardo sobre “Ponto de Partida”:
Caríssimo Sérgio Ricardo,
Quando Villa-Lobos foi convidado a compor a trilha sonora do filme Green Mansions, teriam perguntado a ele que tipo de música ele pretendia criar, e ele teria respondido: a única música que sei fazer é a música brasileira.
Lembrei-me dessa história ouvindo o seu excelente CD, que em boa hora resgata um repertório que é, em seu harmonioso conjunto, a comprovação de um talento musical profundamente brasileiro em sua generosa diversidade, que reflete a própria diversidade fascinante da música brasileira, com sua unidade plural, sua riqueza criativa e sua simplicidade. Lembrei-me também daquela gravação do Vinicius de seu Samba da bênção, em parceria com Baden, quando ele pede a bênção a todos os santos e orixás da música popular brasileira. Você não precisou pedir: nas músicas e nas letras, sentem-se as bênçãos dos ventos, do mar e dos pescadores de Caymmi, de todas as dimensões do amor cantadas por Vinicius, da pulsação rítmica viril e do lirismo melódico de Cartola, da força telúrica de Glauber Rocha – um retrato, enfim, de corpo inteiro do universo sonoro do Brasil, traçado com a personalidade própria de um verdadeiro criador e com uma musicalidade contagiante. E mais: valorizado, sem distorções modernosas, pelo sopro renovador dos jovens arranjadores e instrumentistas que promovem uma moldura expressiva e atual para a sua rara e bem timbrada voz de barítono e as belas vozes femininas de algumas faixas. Uma bela contribuição desses jovens para imprimir a esse repertório um sentido de atualidade, de modernidade e de permanência. É como se eles recuperassem aquele violão quebrado de 67 e o fizessem soar em toda sua plenitude, resgatando uma produção que certamente será, por sua qualidade musical e poética, uma nova e necessária referência para os novos talentos da MPB de agora e do futuro.
Um abraço com a admiração do
Edino Krieger
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