NONADA REÚNE EM CD, CLÁSSICOS DA MPB COM OS MÚSICOS TUTTY MORENO, RODOLFO STROETER, NAILOR “PROVETA”, TECO CARDOSO E ANDRÉ MEHMARI.
Nonada, a palavra que dá início ao romance Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa, foi a escolhida pelos músicos para dar título ao CD que estão lançando pela Biscoito Fino. Que fique bem explicado que de ninharia o trabalho passa ao largo. Pelo contrário. É fruto de uma convivência criativa que teve início em maio de 1998, com a gravação do CD Forças D´Alma, que juntou o baterista Tutty Moreno, o produtor e contrabaixista Rodolfo Stroeter, o pianista André Mehmari e o saxofonista e clarinetista Nailor “Proveta”. Nonada ganhou mais um integrante: o saxofonista e flautista Teco Cardoso.
Nonada, para esta turma, é a busca da música popular brasileira tradicional e suas possibilidades de expansão até um resultado que revela total liberdade de expressão e improvisações maiores. Eles recriam as obras de alguns pilares da música brasileira, como Dorival Caymmi, Ary Barroso, Baden Powell, Moacir Santos, Hermeto Pascoal, numa linguagem onde a tradição das composições se vê respeitada em sua essência e, ao mesmo tempo, reinventada.
De Caymmi, escolheram O Vento e Não Tem Solução. Na primeira, o piano de André Mehmari faz uma criativa harmonização que se soma ao clima introspectivo inicial criado por Tutty Moreno e Rodolfo Stroeter que, por sua vez, instigam Teco Cardoso a um vôo solitário e intrincado com seu sax alto. No clássico Não Tem Solução é a vez de Nailor “Proveta” brilhar numa lírica participação com seu saxofone alto, ancorado pelo piano de Mehmari, que também atua como solista. A faixa ganha com os dois uma densidade especial na contínua construção/desconstrução do baixo e da bateria.
A idéia original de Baden Powell foi mantida em É de Lei, parceria com Paulo César Pinheiro. A constante frase da primeira parte, iniciada primeiramente pelo contrabaixo e pelo piano, é reforçada pelos comentários dos sopros e da bateria. A mesma frase do baixo acaba virando um sólido esteio para os improvisos dos demais instrumentistas do grupo.
Moacir Santos é revisitado no choro Da Bahia ao Ceará e no clássico Coisa nº2. A primeira é executada com galhardia pelos cinco componentes, que se revezam num bem-humorado jogo musical, brindando o ouvinte na faixa que abre o CD. Já a clássica e misteriosa Coisa nº2 alcança um clima etéreo onde o tema se desenvolve pelos sopros ancorados pela elegância discreta do trio piano/baixo/bateria.
A pouco conhecida composição Hermeto, de Hermeto Pascoal, assim como a composição do saxofonista Nailor "Proveta", Vovô Manoel, permitem a Stroeter, Moreno e Mehmari a criação de um samba/jazz moderno e único, ora em acompanhamento aos sopros ora em vôos próprios, como é o caso do esplêndido momento do trio, vivenciado no improviso de André Mehmari em Vovô Manoel.
Ary Barroso comparece com Inquietação, que ganha uma elegantíssima e única reinterpretação, onde a integração dos músicos entre si se faz notar de maneira clara. É pura música brasileira do século 21.
A compositora e violonista carioca Joyce faz uma participação na música de sua autoria Feijão com Arroz, que encerra o CD. Ela é cercada nesse baião de cores modernas, pelo sólido acompanhamento do trio e pelo brilhante arranjo de Nailor "Proveta" para os sopros.
Nonada mostra um resultado coeso e maduro, fruto do convívio criativo desses músicos, que visa expandir o repertório da música instrumental brasileira.
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