|
Apresentação |
 |
|
ZEZÉ EM TEMPO VIRTUAL
Na lenta idealização de um novo disco para Zezé Gonzaga, deparamo-nos com uma realidade quase dolorosa: ela não se sentia mais estimulada a gravar.
Idêntico processo começou a ser vivido há umas quatro décadas, quando se via refém de fórmulas repetitivas que o mercado de discos lhe impunha. E, não esqueçamos, haviam sido lacradas, não muito simbolicamente, as portas da Rádio Nacional – onde reinava como a cantora preferida dos músicos e maestros daquela casa. O golpe de 64 atingiu muitas cabeças e gargantas. As cordas vocais de Zezé se retesam e quase lacrimejam lembrando aquela época. A decisão radical foi tomada, tempos depois : fechou a pequena agência de jingles que mantinha no Rio de Janeiro, juntou malas e cuias e foi cuidar de uma creche no Paraná.
Engavetara sua própria voz, e pensava que fosse para sempre.
O tempo virtual é aquele quase hipotético e irreal, que podemos construí-lo num processo de reengenharia, com tecnologias que nos permitem avançar num terreno próximo a science-fiction. Matéria prima não me faltava, acumulada em quase meio século: fitas cassete, de vídeo, de rolo, partituras – centenas de programas gravados na TVE (1976/1990, e alguns programas em 1994) – um mundo que mergulhara em arquivos empoeirados, verdadeiras jazidas de ouro onde a voz de Zezé, lâmina afiada, recusava-se a enferrujar. Foi nesse universo semi-virtual que mergulhei para fazer a prospecção do tesouro para celebrar os 80 anos da cantora, ela auto-exilada em seu pequeno apartamento perto da Praça da Bandeira.
Um artigo de meu querido Zuenir Ventura, que cita Umberto Eco, me faz refletir que este Entre Cordas é também um modestíssimo exemplo de obra aberta, “cuja pluralidade de significados permite que você tire dela o que quiser, não necessariamente o que o autor pretendeu mostrar”. Oferece, daí, “as leituras diversas, por vezes opostas” a que se refere o Mestre, citando um filme polêmico.
Na procura de dar definição às coisas, afirmaria que este “Entre Cordas” é mais que um CD áudio virtual, mais que um mini-documentário cuja visualidade caberá a cada um construir, descobrir sob sua particular ótica emotiva. Mas preferia que o vissem – sim, que o vissem – como semi-fotogramas holísticos, tendo Fernando Prado como piloto desse vôo. Trabalhamos com o espaço-tempo, que o potencializamos através da prodigalidade de novas mídias fornecidas pelas tecnologias mais avançadas. Um áudio-virtual, enfim.
O conceitual do projeto, “Entre cordas“, me parece óbvio destrinchá-lo: a voz de Zezé envolta em cordas dedilhadas, pulsadas, friccionadas ou apenas percutidas (como é o caso do piano de Radamés) – mas cordas para emoldurar as suas, vocais.
E lá fui eu escavucar a matéria prima nos portões de meu arquivo e no da TVE, ambos em processo de restauração – e que ainda não pode nos atender em momentos irreprisáveis: ela acompanhada por Rafael Rabello, pelo grande Radamés e seu Quinteto, ela cantando a capella no estúdio ou em minha casa, em apresentações gravadas em mídias jurássicas, algumas irrecuperáveis. Mas a tecnologia avançou, minhas velhas fitas VHS perderam o bolor, e lá estava a voz de Zezé, imperecível, com a categoria de sempre, e eu ao telefone narrando as peripécias das fitas passando por filtros regeneradores - e ela, do seu claustro, irredutível na sua decisão. Nem conto a ela um segredo: uma descoberta quase arqueológica, revelada por Luiz Otávio Braga: duas das canções (“Mulatinha” e ‘Isto é amor””) seriam absolutamente inéditas. Ele mesmo acompanhou Bororó nessas canções, num evento no Museu de Arte Moderna em 1977. Esse bloco, aliás, foi produzido a pedido de meu querido e saudoso Carlos Alberto Loffler para o programa “Lira do povo”, que ele dirigia. Minha intervenção, naquela faixa, se justifica : era eu o produtor e apresentador daquele quadro, por imposição de um dos maiores mestres da televisão brasileira.
Águas, batendo forte e constantemente nas pedras, acabam por perfurá-las.
O ditado eu o lembrei, cortando a Avenida Brasil, a caminho do Estúdio da Acari Records. Já estávamos no clima de transferência do campo virtual para as engenharias sonoras processadas de formas as mais sofisticadas, e já com Zezé acedendo em registrar apenas uma ou duas faixas, não mais do que isso ( “e sem fazer fotografias!”) para o novo disco que a Biscoito Fino programara para celebrar os 80 anos da cantora. Mas...por que ir gravar num outro estúdio? É que alguns cancelamentos e transferências de datas, não nos permitiram gravar Zezé nos novos períodos oferecidos pela Biscoito : Maurício estaria em Teerã, e, sem ele, Zezé não gravaria. E tinha um agravante : o Mauricio-compositor nunca estivera presente em seus discos, além de representar a comunidade de admiradores da Escola Portátil, uma das reservas ecológico-musicais onde espécimes raros, como Zezé Gonzaga, são cultuados. E gravar em Acari tinha uma outra vantagem : a companhia de Zeinha, esposa de Álvaro (a quem chamo de Carrilhão) e mãe de Maurício. Cozinheira de mão cheia, não se cabia em alegrias por receber Zezé. Lembranças de Nara Leão e Elizeth, presenças habituais em sua mesa. No dia em que escreverem a história do choro, há que se reservar um capítulo inteiro para Mãe Zeinha.
Essa documenta (a palavra não está dicionarizada) áudio-visual-amorosa teve a participação afetiva de muita gente, e todas elas constam dos créditos deste disco. Fernando Temporão, jovem músico e admirador de Zezé, foi designado pela Biscoito Fino, para ser o Assistente de Produção - e seu desvelo por Zezé me comove. Que não se esqueça o engenheiro de som, Jota Souza, que veio-e-levou-e-trouxe as fitas VHS para São Paulo num esforço de recuperação, esguichando lágrimas cada vez que o nome de Zezé era pronunciado. Martinho Filho amplia o sonho : por que não uma faixa interativa dela com Rafael? E Kati de Almeida Braga e Olívia Hime aprovam.
Uma crônica do Veríssimo, falando de sua comovente intervenção no filme do “Brasileirinho”, acho que abalou as estruturas de Zezé e me ajudou a levá-la, em seguida, ao Estúdio da Biscoito para uma suposta audição de parte do “Entre Cordas”. Cometi uma pequena traição, pedindo ao Fernando que deixasse os microfones ligados. Afinal – não me sinto produzindo um disco, mas vivendo num mundo virtual, dirigindo um documentário também virtual, quase science-fiction.
Zezé a temos perto de nós, ainda e por muito tempo. É, afinal, uma menina de 81 anos. Cuidemo-nos para preservar seu brilho, polindo, com esmero, sua permanente luminosidade.
Hermínio Bello de Carvalho, setembro de 2007
|
|
Faixas |
 |
|
| 01 |
Senhorinha (Guinga / Paulo César Pinheiro) com Quarteto Maogani
|
|
|
| |
|
| 02 |
Pra Dizer Adeus (Edu Lobo / Torquato Neto) com Quarteto Maogani
|
|
|
| |
|
| 03 |
Esses Moços (Lupicínio Rodrigues) com Quarteto Maogani
|
|
|
| |
|
| 04 |
Trovas . Além do Amor (Marcelo Tupinambá / Adelmar Tavares) com Hamilton de Holanda
|
|
|
| |
|
| 05 |
Folhas Secas (Nelson Cavaquinho / Guilherme de Brito) com Banden Powell
|
|
|
| |
|
| 06 |
Amargura (Radamés Gnattali / Alberto Ribeiro) com Radamés Gnattali
|
|
|
| |
|
| 07 |
Duas Contas . Imagens . Linda Flor (Garoto) com Rafael Rabello
|
|
|
| |
|
| 08 |
Tributo a Bororó . Mulatinha . Da cor do Pecado . Isto é Amor (Luiz Peixoto / Marques Porto / Henrique Vogeler / Cândido Costa) com Luiz Otávio Braga
|
|
|
| |
|
| 09 |
Cantoria . Não me Culpes (Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho) com João Lyra e Critiana Braga
|
|
|
| |
|
| 10 |
A Voz e o Tempo (Maurício Carrilho / Hermínio Bello de Carvalho) com Maurício Carrilho, Paula Aragão e Hugo Pilger
|
|
|
| |
|
| 11 |
Tribeira (Vidal Assis / Hermínio Bello de Carvalho) com Maurício Carrilho, João Lyra e Hugo Pilger
|
|
|
| |
|
| 12 |
Serestas 5 (Heitor Villa-Lobos / Manoel Bandeira) com Quarteto Maogani
|
|
|
| |
|
| 13 |
Prelúdio da Solidão (Heitor Villa-Lobos / Herminio Bello de Carvalho) com Marcus Tardelli
|
|
|
| |
|
|
|
Ficha Técnica |
 |
|
|
Engenheiros de Gravação: Fernando Prado e Amaro Moço
Estúdios de Gravação: Biscoito Fino e Acari
Assistente de Gravalçao: Erik Medeiros e Gustavo Krebs
Engenheiro de MIxagem: Fernando Prado
Estúdio de Mixagem: Biscoito Fino
Materização: Visom Digital
Projeto Gráfico: Branca Escobar
Fotografias: DR
Restauração de Vídeo e Faixa Multimídia: André Monteiro
Assistente de Produção: Fernando Temporão
Concepção e Roteiro por Hermínio Bello de Carvalho
UMA REALIZAÇÃO BISCOITO FINO
Direção Geral: Kati Almeida Braga
Direção Artística: Olivia Hime
Coordenação de Produção: Martinho Filho
|
![]() |
|
|
|
|