ZÉ KÉTI - ENSAIO
DVD com programa de Fernando Faro feito em 1991 sai pela Biscoito Fino em parceria com a TV Cultura.
O tradicional chapéu Panamá foi trocado por um boné e os bigodes já estão grisalhos. Mas o olhar risonho de Zé Kéti é de um jovem aparentemente muito à vontade diante das câmeras do programa Ensaio, dirigido por Fernando Faro para a TV Cultura. Começa a entrevista pelo seu nascimento, no bairro de Inhaúma, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Com bom humor, comenta sobre o grande progresso por que passou o lugar de lá pra cá. “Ganhou um pré-metrô, casas de flores, capelas para velórios e apartamentos do BNH, com mais de cinco mil crianças”. Daí vai para a casa do avô flautista e pianista, onde conheceu Pixinguinha e tantos músicos formidáveis. Aos sábados, o avô promovia bailes ao som de um gramofone.
O Programa Ensaio, agora lançado em DVD pela Biscoito Fino, foi gravado em 1991, oito anos antes da morte do compositor: Zé Kéti ao violão, acompanhado por um trio de jovens músicos: Joãozinho (cavaquinho), Rodrigo (violão) e Odair (percussão). E é uma delícia ouvir as histórias e as músicas do compositor de A Voz do Morro, Opinião e Mascara Negra.
Da casa do avô ele vai para a Mangueira, que conheceu pelas mãos do compositor Geraldo Cunha. Foi apresentado a Dona Neuma, “ainda uma menina”, Cartola, Babaú, Nelson Cavaquinho e outros craques da escola, ainda na antiga sede do Buraco Quente, onde eram lançados os sambas de terreiro. “Isto acabou”, lamenta. “Hoje é só samba de enredo”.
Curiosamente, a primeira música apresentada no programa por Zé Kéti, Avenida Iluminada, não é de sua autoria, mas de Newton Teixeira e Brasinha. Dá uma palinha de Quem me Vê Sorrindo, de Carlos Cachaça e Cartola e canta outras 20 de sua autoria. Máscara Negra, Tio Sam no Samba, sua primeira música gravada, em parceria com Felisberto Martins, Vivo Bem, a segunda, gravada por Ciro Monteiro, seguindo com Amor Passageiro, em parceria com Jorge Abdala, gravada por Linda Batista em 1952 e Leviana, primeiro sucesso de Jamelão.
O ponto alto do programa é quando Zé Kéti lembra as músicas do show Opinião, título de sua composição, encenado em 1964 por ele, Nara Leão e João do Vale. A peça foi remontada em 1975 por Paulo Pontes, dirigida por Bibi Ferreira. Zé Kéti lamenta que o teatro onde o espetáculo fez grande sucesso e lançou Maria Bethânia, substituindo Nara Leão, tenha se transformado num supermercado. Canta então Opinião, Acender as Velas, Malvadeza Durão, Diz que Fui Por Aí (com Hortêncio Rocha), Nega Dina, A Voz do Morro, Mascarada (com Elton Medeiros), Menino do Morro, As Moças do Meu Tempo, Mágoa de Sambista, até se atrapalhar todo quando fala das duas escolas de samba do coração, Mangueira e Portela. Começa explicando que, se não fosse Portela, seria Mangueira, para contar que tem um samba chamado Quero Morrer na Mangueira: “Paulinho da Viola gosta muito”, comenta. Se dá conta do lapso e explica rindo que o samba, na verdade, se chama Quero Morrer na Portela. Depois vem Portela Feliz, Jaqueira da Portela, Natalino José do Nascimento – homenagem a Natal da Portela – e, finalmente, A Voz do Morro em nova versão.
Como diz o crítico musical Sérgio Cabral na contracapa do DVD, “Zé Kéti é um desses fenômenos não muito raros na MPB que, mesmo sem executar qualquer instrumento, criava melodias extremamente inventivas”. O DVD confirma plenamente as palavras de Sérgio.
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