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Pirata CD
Maria Bethânia
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Pirata – Maria Bethânia

Em novo CD, lançado por seu selo Quitanda, Maria Bethânia viaja pelo universo folclórico e afetivo das águas dos rios do interior do Brasil.

Duas das coisas mais presentes e fundamentais na vida de Maria Bethânia são os fios condutores dos dois novos discos da cantora: a água e a poesia. Em Pirata, Bethânia assume a persona de uma menina do interior para quem o mar, assim como o céu, é uma vaga e inalcançável imensidão azul com que dialoga em pensamento. Menina que não conhece o mar, mas que tem na água doce um espelho, um prisma pelo qual absorve e alcança os meandros de um universo que a rodeia.

Pirata é fruto das memórias da cantora, que sempre teve fascínio por rios, cachoeiras e toda a vida que se desenvolve sob e em volta das águas. Neste disco, Bethânia nos apresenta um relicário de momentos fundamentais da cultura popular brasileira, além de canções inéditas e de compositores clássicos em sua voz. Assim, Pirata é um disco repleto de pequenas histórias que transmitem, em uníssono, o conceito do disco. É o diálogo entre a menina santamarense e a intérprete atemporal que, na verdade, coexistem uma na outra.

“O mundo do rio não é o mundo da ponte”. O verso de Guimarães Rosa, que antecede a canção Francisco, Francisco (Roberto Mendes/Capinam) evidencia a dualidade existente em Pirata: a cantora que mergulha nessas “águas de açúcar” e que, ao mesmo tempo, as observa de fora, com toda a carga do viés crítico. Bethânia pratica cidadania ao cantar os versos: “Francisco, Francisco / Tantas águas corridas / Lágrimas escorridas, despedidas, saudades / Adeus velho Chico / Diz o povo nas margens”, sobre a atualíssima discussão em torno da transposição do rio da integração. Este é o mundo observado da ponte, do alto, um olhar apreensivo sobre as questões.

Mas Bethânia mergulha fundo nesses vários rios que compõem sua criação. Começa com a poesia singela e sábia do artista popular com Pedrinha Miudinha, de Domínio Público - como também o são as Cantigas Populares -, com inserção do texto Orixá (Jorge Portugal), seguidos por História pro Sinhozinho (Dorival Caymmi) e a poesia densa de O Tempo e o Rio (Edu Lobo/Capinam). “Todo cais é uma saudade de pedra”, na síntese de Fernando Pessoa, dá a deixa para a clássica Os Argonautas (Caetano Veloso). Pra estancar a “saudade”, Pirata navega para a terra natal de Bethânia com Santo Amaro (Roque Ferreira/Délcio Carvalho), Memória das Águas (Roberto Mendes/Jorge Portugal) e Onde Eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso).

E como “Perto de muita água tudo é feliz”, a afirmação de Guimarães Rosa se combina perfeitamente com os versos “Não quero outra vida/Pescando no rio de Jereré...”, da contemplativa De Papo pro Ar (Joubert de Carvalho/Olegário Mariano). Da felicidade, para o desalento amoroso de A Saudade Mata a Gente (João de Barro/Antonio Almeida) e Sereno (Antonio Almeida), precedidas por “Amor é sede depois de se ter bem bebido”, também de Guimarães Rosa. Água de Cachoeira (Jovelina Pérola Negra/ Carlito Cavalcanti/ Labre), uma “pérola” até então esquecida do repertório de dona Jovelina, mostra toda a força dessas águas: “Água de beber, água de molhar, água de benzer, água de rezar”. E Pirata envereda mais uma vez para as águas da cidadania com o texto Poesia, de Antonio Vieira: “O aluno devia bater palma/ Saber de cada um o nome todo/ Se sentir satisfeito e orgulhoso/ E falar deles para os de menor idade/Os nomes dos poetas populares”, junto de A Coroa (Humberto do Boi do Maracanã), legítimo tema das festas do boi maranhense.

“Sempre pensar em ir/ caminho do mar/ Eu não sei o que os rios têm de homem do mar...”, fragmento do poema Rio, de João Cabral de Melo Netto, sinaliza a intrínseca ligação entre os opostos e, simultaneamente, complementares Mar de Sophia e Pirata. Elementos das águas de sal e de açúcar fundem-se, casos das inéditas Sereia de Água Doce (Vanessa da Mata) e Eu que Não Sei Quase Nada do Mar (Ana Carolina/ Jorge Vercilo). Navegando num conceito de polaridades, Pirata termina seu curso na escassez de água do sertão que, segundo Guimarães Rosa, “...é uma espera enorme”, e na conseqüente esperança contida em Meu Divino São José, oração de Domínio Público.

Bethânia se reinventa mais uma vez. Vai buscar em suas referências mais profundas e ancestrais os elementos que suprem de ineditismo seus dois novos trabalhos que, embora complementares no conceito, em nada se parecem. Constituem uma rara oportunidade de se observar, simultaneamente, o resultado de dois processos criativos diferentes de um mesmo artista. Pirata é um projeto que, acima de tudo, aposta na força e na sofisticação do povo brasileiro, através da criação de seus artistas populares. Não só na canção. Exemplo disso é o encarte do disco, cuja arte é toda baseada no artesanato de bordadeiras do Rio São Francisco. São as várias expressões artísticas dialogando entre si, e personificadas na interpretação síntese de Bethânia. Pirata flerta com o Brasil real, conduzindo a uma viagem pelas várias faces da criação artística genuína de um país tão complexo quanto desconhecido; através de águas doces e limpas, cada vez mais raras por aqui.



Sidimir Sanches

Faixas
01 Pedrinha Miudinha (Domínio Público), História pro Sinhozinho (Dorival Caymmi)
02 O tempo e o Rio (Edu Lobo / Capinam)
03 Todo cais é uma saudade de pedra Os Argonautas (Caetano Veloso)
04 Perto de muita água, tudo é feliz Santo Amaro (Roque Ferreira / Délcio Carvalho)
05 De papo pro ar (Joubert de Carvalho / Olegário Mariano)
06 Sereia de Água Doce (Vanessa da Mata)
07 Eu que não sei quase nada do Mar (Ana Carolina / Jorge Vercilo)
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08 A saudade mata a gente (João de Barro / Antonio Almeida)
09 Serenô (Antonio Almeida)
10 Memória das Aguás (Roberto Mendes / Jorge Portugal)
11 Água de Cachoeira (Jovelina P. Negra, Labre / Carlito Cavalcante)
12 Cantigas Populares (Domínio Público), A Coroa (Humberto do Boi de Maracanã)
13 Onde eu nascí passa um rio (Caetano Veloso)
14 Francisco, Francisco (Roberto Mendes / Capinam)
15 Meu Divino São José (Dominio Público)
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