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Mar de Sophia - Maria Bethânia
Em novo CD lançado pela Biscoito Fino, Maria Bethânia canta o mar e seus símbolos a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner
Duas das coisas mais constantes e fundamentais na vida de Maria Bethânia estão presentes nos novos discos da cantora: a água e a poesia. Em Mar de Sophia, as preciosas palavras ditas por Bethânia vêm embebidas na maresia. Aliás, não só as palavras. A cantora parafraseia, e toma para si, os versos da portuguesa Sophia de Mello Breyner: “O mar, metade de minha alma é feita de maresia”. Aqui, o canto, a fala, a alma da intérprete...Tudo exala maresia. Assim, os textos da poetisa funcionam como pontes que unem os vários mares contidos na essência criativa de Bethânia. E a revelam, seqüencialmente.
Neste Mar de Sophia, Bethânia dá vazão as suas memórias e paixões para construir uma narrativa pontuada pela coerência, e banhada pelas águas da simbologia que alimenta lendas, mitos e histórias. A poesia lusitana de Sophia de Mello Breyner alinhava e costura o discurso concebido por Bethânia, adaptando-se harmoniosamente à diversidade de subtemas abordados no disco.
Logo na abertura, Bethânia sentencia: “Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”, trecho retirado do texto Inscrição, de dona Sophia (como o são todos os textos do álbum). Esta frase, por si só, resume as motivações que culminaram em Mar de Sophia. Ainda na primeira faixa, aparece um Canto de Oxum (Vinicius de Moraes/Toquinho) denso, com a voz de Bethânia alternando entre os sussurros e os agudos; E ainda a inédita Yemanjá Rainha do Mar (Pedro Amorim/Paulo César Pinheiro). As duas faixas mais a autobiográfica Dona do Raio e Vento (também de Paulo César Pinheiro)- introduzida pela vinheta O Vento (Dorival Caymmi) e pelo texto Procelária- demonstram a intensa relação entre elementos da religião africana e a água.
Com a inédita Beira-Mar (Roberto Mendes/Capinam), Bethânia assinala que, sob seu prisma criativo, mar e rio encontram-se, coexistem juntos, atestando a ligação interna entre Mar de Sophia e Pirata: “Dentro do Mar tem rio... É calmaria e trovão. Dentro de mim tem o quê?”, afirma e indaga-se. Tem rio, mas também tem sertão. Um sertão onírico, indefinido: “E o mar ficou lá no sertão. E o meu sertão em nenhum lugar”, diz a canção Grão de Mar (Márcio Arantes/Chico César), junto com o texto Navegações XIV.
A mítica figura do marinheiro, destemido e solitário, aparece tanto na baianidade de Marinheiro Só (Caetano Veloso) e no ijexá Memórias do Mar (Vevé Calazans/Jorge Portugal), quanto no fado O Marujo Português (Linhares Barbosa/Arthur Ribeiro) - junto do texto Marinheiro Real. As águas tépidas do mar da Bahia estão na épica Kirimurê (Jota Velloso), onde os efeitos sonoros do virtuoso Naná Vasconcelos se integram harmoniosamente com as nuances das cordas. O mar de Bethânia também reúne e funde, numa mesma faixa, a poesia de Carlos Drummond de Andrade (em O Mundo é Grande, com música de Suely Costa), o lirismo de Dona Sophia (com o texto Inicial) e as singelas Cirandas de domínio público. Em Poema Azul (Sérgio Ricardo) o mar adquire humanidade: “O mar beijando a areia. O céu e a lua cheia. Que cai no mar. Que abraça a areia...”.
Os mares de Bethânia também fluem rumo ao desalento amoroso, através do rancor de Lágrima (Roque Ferreira); do set que reúne Cantiga da Noiva (Dorival Caymmi), o texto Pirata (outra referência ao irmão de água doce) e Floresta do Amazonas (Heitor Villa Lobos); e ainda do poema Terror de te Amar junto de Praias Desertas (Tom Jobim). Fluem também para o desalento existencial, a impossibilidade de se viver submerso, na inconformada Debaixo D’Água (Arnaldo Antunes) - junto de Agora (dos Titãs) - falada por Bethânia numa levada rap. E do rap, pro samba-enredo da Portela, de 1981, Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite (David Corrêa/Jorge Macedo) - introduzido pelo texto Em Hydra, Evocando a Fernando Pessoa. E mais uma vez, subvertendo as questões, Bethânia encerra o disco aludindo, na verdade, a um recomeço, com Canto de Nana (Dorival Caymmi). Na religião africana, Nanã é um orixá ancião respeitadíssimo, cuja essência é o barro, a lama e representa a criação, o início de tudo. Mar de Sophia indica que ali situa o começo, com Bethânia sinalizando, numa metalinguagem, os caminhos por onde navega sua criação.
Permeando os poros repletos de água de Mar de Sophia, as participações luxuosas do já citado Naná Vasconcelos (nas faixas Rainha do Mar, Marinheiro Só, Grão de Mar, Vamos Chamar o Vento, Cantiga de Noiva e Canto Pra Nana), o piano de João Carlos Assis Brasil (na faixa Lágrima) e Antonio Adolfo (em Poema Azul e as Praias Desertas), além do cavaquinho de Luciana Rabello (em Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de Uma Noite).
Bethânia se reinventa mais uma vez. Vai buscar em suas referências mais profundas e ancestrais os elementos que suprem de ineditismo seus dois novos trabalhos que,embora complementares no conceito, em nada se parecem. Constituem uma rara oportunidade de se observar, simultaneamente, o resultado de dois processos criativos diferentes de um mesmo artista. Após ouvir Mar de Sophia, todos concordarão com os versos de Arnaldo Antunes em Debaixo D’Água: “Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente, longe de toda gente para sempre. No fundo do mar”.
Sidimir Sanches
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Faixas |
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| 01 |
Canto de Oxum (Toquinho / Vinicius de Moraes)
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| 02 |
Yemanjá Rainha do Mar (Pedro Amorim / Paulo César Pinheiro) Beira Mar (Roberto Mendes / Capinan)
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| 03 |
Marinheiro Só (Caetano Veloso) e O Marujo Português (Linhares Barbosa / Arthur Ribeiro)
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| 04 |
Poema Azul (Sérgio Ricardo)
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| 05 |
Kirimurê (Jota Velloso)
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| 06 |
Grão de Mar (Márcio Arantes / Chico César)
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| 07 |
Quadrinha: O Mundo é Grande (Carlos Drummond de Andrade / Sueli Costa), Cirandas (Domínio Público)
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| 08 |
Debaixo D´água (Arnaldo Antunes), Agora (Tony Bellotto, Charles Gavin, Branco Mello, Nando Reis, Marcelo Fromer, Paulo Miklos, Sérgio Britto / Arnaldo Antunes)
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| 09 |
Memórias do Mar (Vevé Calazans / Jorge Portugal)
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| 10 |
As Praias Desertas (Tom Jobim)
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| 11 |
Dona do Raio: O Vento (Dorival Caymmi), A Dona do Raio e do Vento (Paulo César Pinheiro)
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| 12 |
Lágrima (Roque Ferreira)
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| 13 |
Noiva: Cantiga da Noiva (Dorival Caymmi), Floresta do Amazonas (Heitor Villa Lobos)
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| 14 |
Portela: Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite (David Corrêa / Jorge Macedo)
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| 15 |
Canto de Nanã (Dorival Caymmi)
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Leve os 2 CDs para casa |
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