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Apresentação |
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Álbum reúne músicas dos anos 30 aos 50, interpretados por dois dos maiores mestres da música instrumental brasileira, além de dois temas inéditos
Foi numa festa na casa do diretor de TV, Carlos Manga, que João Donato e Paulo Moura decidiram se unir para gravar, pela primeira vez um disco, em duo. Era aniversário do diretor e, entre uma dose e outra de uísque, o anfitrião sugeriu a dupla que interpretasse alguns dos temas que os freqüentadores do Sinatra-Farney Fã Club degustavam em suas célebres audições na década de 50. Ali, nas lojas Murray, no centro do Rio, costumavam se reunir músicos e admiradores do samba e do jazz em encontros considerados por muitos como o próprio embrião da Bossa-Nova.
Inspirados por tantas lembranças, Donato e Moura desfilaram, durante horas, para um grupo de seletíssimos convidados, algumas das músicas mais marcantes daquelas audições antológicas. É justamente esta a base do repertório de Dois Panos Para Manga, a partir da memória afetiva de João e Paulo, com uma mãozinha do diretor homenageado no título. “Manga chegou a cantar, com voz de tenor, enquanto tocávamos nossas músicas preferidas daquele período. E até improvisou uma direção na hora”, diverte-se Donato. “O Carlos Manga era o presidente do Sinatra-Farney. Sem ele, nada acontecia”, lembra Moura.
A interação entre os músicos e o repertório era tanta, que o álbum foi gravado em menos de uma semana, em fevereiro deste ano, no estúdio AR, no Rio, somente com a clarineta de Paulo e o piano de Donato. O repertório inclui sete standards, além de dois temas – Pixinguinha no Arpoador e Sopapo - compostos pela dupla, especialmente para o disco. Dentre os clássicos do jazz – especialidade do fã clube – estão On a Slow Boat to China (Frank Loesser); Swanee (George e Ira Gershwin); That Old Black Magic (Harold Arlen e Johnny Mercer), em homenagem a Frank Sinatra; e Tenderly (Walter Gross e Jack Lawrence), um dos maiores sucessos de Nat King Cole.
Do repertório brasileiro, há duas recriações de Braguinha, o João de Barro, sucessos dos anos 40: A Saudade Mata a Gente, em parceria com Antonio Almeida, e Copacabana, feita com Alberto Ribeiro; além de Minha saudade, parceria de Donato com João Gilberto, que possui um significado especial para Paulo: “Esta foi a primeira música com forma de Bossa-Nova que conheci. Gravei-a em meu disco de estréia, foi provavelmente a primeira gravação da música”, conta Paulo.
As músicas inéditas, compostas a partir do encontro na casa de Manga (não por acaso localizada à rua Dick Farney, na Barra da Tijuca), são influenciadas do repertório em questão. Pixinguinha no Arpoador possui citações de temas conhecidos da música brasileira e internacional: “A inspiração surgiu quando nos encontramos na casa do Paulo e eu fiz uns acordes. Ele perguntou o que era, eu disse que nada, mas eram as primeiras notas de Carinhoso. Saímos tocando, até que virou um samba-canção parecido também com La vie em rose”, destrincha Donato.
Sopapo foi criada no mesmo dia e batizada pelo clarinetista: “Sopapo é o nome de um tambor da região de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que me foi presenteado pelo percussionista Giba-Giba”. Coincidência ou não, Pelotas é a terra natal de Ivone Belém, esposa de João, que assina a produção executiva do disco, junto com Halina Grymberg, mulher de Paulo: “É um tema cheio de alegria, qualquer criança entende. Além disso, de todas as emoções a alegria ainda é a minha favorita” – elege Donato.
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Faixas |
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| 01 |
A Saudade Mata a Gente (Antônio Almeida / João de Barro)
compre em mp3
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5m16s
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| 02 |
On a Slow Boat to China (Frank Loesser)
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5m01s
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| 03 |
Swanee (George Gershwin / Ira Gershwin)
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4m31s
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| 04 |
Copacabana (João de Barro / Alberto Ribeiro)
compre em mp3
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5m37s
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| 05 |
Tenderly (Walter Gross / Jack Lawrence)
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4m33s
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| 06 |
That Old Black Magic (Harold Arlen / Johnny Mercer)
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4m36s
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| 07 |
Minha Saudade (João Donato / João Gilberto)
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7m56s
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| 08 |
Pixinguinha no Arpoador (João Donato / Paulo Moura)
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4m36s
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| 09 |
Sopapo (João Donato / Paulo Moura)
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5m56s
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Entrevista |
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CORTE E COSTURA
Paulo Moura - Escolhemos as músicas, Donato e eu,
puxando da memória aquelas que mais eram tocadas
nas jam sessions que o Sinatra-Farney Fã Clube
produziu nos anos 50. Recordo muito de um show no
antigo Cassino Atlântico, onde os artistas se
apresentavam em quadros e tinha aquela dança
extravagante da época, o jitterbug. Um dos
quadros era com Al Johnson cantando Swanee, que
acabou entrando no nosso repertório. Outro era
uma homenagem ao Frank Sinatra, That Old Black
Magic, cantada por outro integrante do Sinatra-
Farney, o Luiz Carlos.
João Donato - Essas lembranças chegavam e nós
fomos tocando. Além de outras que eram agradáveis
aos nossos ouvidos, como Copacabana, A Saudade
Mata a Gentee Tenderly.
P. M. - E assim fomos compondo o repertório. Uma
música que talvez tenha sido a primeira música
com a forma de bossa nova que eu conheci, foi
Minha Saudade, do Donato e João Gilberto. Eu a
gravei no meu primeiro disco - foi provavelmente
a primeira gravação desta música.
J. D. - Tem também as nossas novas invenções:
Sopapo e Pixinguinha no Arpoador. O título
Pixinguinha no Arpoador é do Paulo e a inspiração
surgiu das primeiras notas de Carinhoso. Quando
nos encontramos na casa do Paulo, eu fiz uns
acordes - la la la ri - e o Paulo falou: "o que é
isso?". Eu disse que não era nada, mas eram as
primeiras notas do Carinhoso. Saímos tocando, até
que virou um samba-canção parecido com
Carinhoso(risos) e com La Vie en Rose.
P. M. - Mas Pixinguinha no Arpoador me diz muito
porque já há algum tempo eu estava tentando
encontrar uma maneira de tocar com Donato. Um
amigo em comum perguntou por mim ao Donato e ele
respondeu: "o Paulo está no chorinho". Aí um dia
desses eu encontrei o Donatinho (filho de João)
num show e mandei um recado: "diz pro Donato que
eu não toco só chorinho, não". Então, quando nos
encontramos, a música acabou saindo porque talvez
essa idéia já estivesse no ar. E Sopapo foi quando
você estava indo embora da minha casa, depois
daquele primeiro encontro.
J. D. - É, tinha aquele tambor de Pelotas e eu
fiquei batucando e ele tocando. Saímos fazendo
uma música que o Paulo batizou de Sopapo.
P. M. - Sopapo é o nome de um tambor daquela
região do Rio Grande do Sul, o qual me presenteou
o percussionista Giba-Giba.
SINATRA-FARNEY FÃ CLUBE
P. M. - Morávamos próximos, na Tijuca. A primeira
vez que encontrei o Donato eu estava tocando num
baile, no Flamengo, domingo, na orquestra do El
Cubanito. O Donato e mais dois amigos entraram no
finalzinho, enquanto eu esperava o pagamento.
Então ele foi ao piano e tocou uns acordes e eu
fiquei impressionado: aquilo não se fazia. Isso
aconteceu mais ou menos no final dos anos 50.
J. D. - Conversamos ali mesmo, trocamos idéias,
ficamos sabendo que morávamos no mesmo bairro.
P. M. - Lembro de ter visto o Donato no
Sinatra-Farney, depois ele me convidou para tocar
no seu primeiro disco, o Chá Dançante - João
Donato e seu Conjunto, de 1956. Foi a continuação
do nosso encontro.
J. D. - A gente não parou mais de se encontrar.
P. M. - Começamos a tocar no piano da alfaiataria
do meu irmão Alberico, onde eu aprendia o ofício
de alfaiate. Na época, eu tocava saxofone. Nós
acompanhávamos o desenvolvimento do jazz.
J. D. - Gostávamos de ouvir músicas de jazz, tocar nas jam sessions.
P. M. - Em seguida começamos a ensaiar um grupo
com dois saxofones, trompete, trombone e piano.
Eu e o Bebeto no saxofone, o Bill Horne no
trompete, o João Luís no trombone, o Everardo
Castro na bateria, o Marinho no baixo e o Donato
no piano. Levamos esse grupo para concertos e
festivais de jazz no Rio e em São Paulo.
J. D. - Aí os trabalhos começaram a aparecer,
começamos a gravar e o tempo a diminuir.
REENCONTRO
J. D. - Fomos nos encontrar de novo numa gravação
de Gaiolas Abertas, uma parceria com Martinho da
Vila, em seu disco Verso e Reverso (1982). E na
gravação de uma trilha de filme (risos): tinha um
acorde que era dó maior, eu fiz uma outra coisa,
um acorde errado. E o Paulo disse: "ah, então tá
bom."
P. M. - A música era em dó maior. E você terminou
a música em dó menor. Mas os estudiosos de música
dizem que essa coisa de dó maior e dó menor não
existe mais. Os dois podem conviver juntos.
(risos)
J. D. - Por último, em janeiro de 2006, na casa do Carlos Manga.
P. M. - Chegamos lá para o aniversário do Manga e
achei que seria uma boa oportunidade para a gente
voltar a tocar junto. Levei o instrumento. Ainda
pensei: será que levo ou não levo? No primeiro
momento, não sabia que o Donato também tinha sido
convidado. Quando soube, resolvi levar a
clarineta, pois sabia que tinha piano na casa.
J. D. - Tocamos com tanto entusiasmo que a Halina
veio com essa idéia de fazer o disco, e a Ivone
se animou. Enfim, desse encontro na casa do Manga
surgiu o CD.
P. M. - O Carlos Manga era o presidente do
Sinatra-Farney Fã Clube. Sem ele nada acontecia.
J. D. - Ele agregava todos. Naquela época,
conseguir discos de jazz era muito difícil. Se
alguém arranjava um disco do Chet Baker, ele
reunia todo mundo para ouvir. O clube tinha
carteirinha e os sócios pagavam mensalidade.
P. M. - Lembro de uma jam session na casa do
Carlos Manga. Ele morava numa casa bonita, na
Conde de Bonfim, acho que era uma casa meio rosa.
Ele convidou músicos do Copacabana Palace, o
Zacarias, o Romeu. No baixo tava o Juvenal. Nos
ensaios ele era bastante firme, tomava decisões
com muita segurança. Já na época ele tinha muito
talento para dirigir e bolar os shows.
Entrevista por Ivone Belem, gravada em 8 de abril de 2006, no Rio de Janeiro.
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Ficha Técnica |
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Piano: João Donato
Clarineta: Paulo Moura
Produzido por João Donato e Paulo Moura
Gravado entre os dias 7 e 11 de fevereiro de 2006, no AR Studios (Rio de Janeiro), por Marcelo Sabóia; assistente de gravação:Bruno Stehling.
Mixado e masterizado na Visom Digital (Rio de Janeiro) por Luiz Tornaghi.
Projeto gráfico: André Vallias
Fotos: Joaquim Nabuco.
Produção executiva: Halina Grynberg e Ivone Belem
Concepção: Halina Grynberg
Entrevista: Ivone Belem
UMA REALIZAÇÃO BISCOITO FINO
Direção geral: Kati Almeida Braga
Direção artística: Olivia Hime
Gerência de produção: Pedro Seiler
Assistente de produção: Renata Mader
www.joaodonato.com.br
www.paulomoura.com.br
www.biscoitofino.com.br
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