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Amendoeira CD
Bebeto Castilho
R$ 33,90 

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Apresentação
Faixas
Ficha Técnica
Texto de Caetano Veloso
Apresentação
Bebeto Castilho é um dos segredos mais bem guardados da música brasileira, que agora se revela. Sim, este CD solo como cantor (e flautista, e baixista, o que não é de jeito nenhum menos importante) do baixista e solista vocal do mítico Tamba Trio vai funcionar para a maior parte dos ouvintes como uma revelação. Para os outros, fãs como Caetano Veloso, autor do emocionado texto da contracapa, ou Milton Nascimento, que começou a cantar e a, não por acaso, tocar contrabaixo na noite para imitar o Bebeto do Tamba, será uma confirmação. Ou melhor, um sonho: ter à disposição do ouvido um disco inteiro conduzido pela voz de Bebeto, que só volta e meia era convocada nas gravações do Tamba Trio, um grupo notabilizado nos anos 60 e 70 pelas ousadas gravações instrumentais ou pelas harmonizações vocais do grupo formado por, além de Bebeto (contrabaixo, flauta, saxofone e voz solo), Luiz Eça (piano e intrincados arranjos) e Hélcio Milito (bateria e tamba, o set de percussão inventado por ele e que batizou o mais criativo dos nossos trios de bossa nova e samba jazz).

Na verdade, este Amendoeira não é o primeiro disco solo de Bebeto. Mas o outro, um LP lançado pela Top Tape em 1976 e só relançado em CD na Inglaterra (pelo selo What Music), foi e é tão raro que este sim apresentará finalmente ao público brasileiro a arte de um cantor e músico que está no auge da forma, mais preciso e moderno do que nunca, aos 66 anos.

E que arte é essa? Por que Caetanos, Miltons e toda uma geração de artistas da música brasileira celebram tanto este senhor? Por que músicos da novíssima geração, como o sobrinho de Bebeto, Marcelo Camelo dos Los Hermanos, e Kassin, que produziram este CD, ainda continuam a ouvir e a se influenciar por ele?

Primeiramente porque Bebeto é um cantor único no panorama do samba e da música brasileira em geral. Ele canta como toca flauta, sem qualquer empostação, sem qualquer efeito exterior à música, sem qualquer interpretação, sem drama, apenas com as notas precisas, os graves, médios e agudos secos, precisos, com o colorido próprio da composição. Bebeto representa para a música brasileira (e para a flauta) o que Chet Baker foi para o jazz (e para o trompete).

Eu sou um músico que canta, não um cantor que toca, confirmou Bebeto, em entrevista a este redator durante as gravações do CD, no estúdio Companhia dos Técnicos, em Copacabana, Rio de Janeiro. E a raiz do meu canto é mesmo Chet Baker.

“Segundamente” porque Bebeto é um baixista único, sobretudo no baixo elétrico, com um suingue que se reflete inclusive na maneira com que divide a melodia quando canta. Embora sempre associado ao jazz e à bossa nova da Zona Sul carioca, Bebeto foi criado na Tijuca, bairro da Zona Norte, e é de lá que vem a sonoridade e o suinge tão característicos de seu baixo.

- Quando eu era garoto, lá na Tijuca, eu dormia ouvindo o surdo do Salgueiro. O meu baixo vem daí, diz.

E, finalmente, porque Bebeto é também um flautista especial. Senão ouçam os solos deste disco, como o da introdução de Sabiá de Mangueira por exemplo, um sopro terno, carinhoso, tão ou mais preciso e doce que o canto do Bebeto.

A flauta em sol é um amor de instrumento. A gente se fala, se agarra, se ama. Tudo que imagino ela me responde tão bem... diz Bebeto, daquela forma sábia e simples que usa quando fala de música, sobre o instrumento que mais gosta de tocar hoje em dia, quando quase não toca mais o saxofone dos tempos do Tamba por ter se cansado do timbre. O CD, produzido pelo sobrinho neto Marcelo Camelo com zelo de filho pela arte refinada de Bebeto e por Kassin, respeita integralmente a concepção musical de Bebeto e a traduz. É calcado, por exemplo, na mesma formação instrumental do Tamba Trio: o baixo de Bebeto, a bateria (por Ivo Moreira Caldas, que já passou pela banda de Marcos Valle, Roberto Menescal e de tantos outros sambistas bossanovistas) e o piano de Laércio de Freitas, o popular Tio, um gênio não só do instrumento como dos arranjos para orquestra. E neste disco Laércio toca, invariavelmente, o piano elétrico Fender Rhodes, de timbre inigualável e tão caro à música brasileira, o que remete mais à sonoridade do Tamba Trio dos anos 70 do que a do período acústico da década anterior.

Os arranjos são do próprio Laércio, com exceção dos arranjos de cordas de Cabelos Cor de Prata e Beijo Distraído, do maestro e pianista Gilson Peranzzetta, e o de Gazela, do também pianista Alberto Chimelli, com quem Bebeto costuma tocar nas tardes de jazz na Modern Sound, a loja de discos de Copacabana. Tais arranjos, também precisos e modernos, e o repertório foram escolhidos de forma a traduzir a concepção musical de Bebeto.

- Os sambas que ele escolhe para cantar não têm harmonias truncadas, ângulos obtusos, embora o tratamento harmônico seja luxuoso, cuidadoso. São canções redondas que contam histórias, há uma fluidez carinhosa, define Marcelo Camelo.

Ele próprio, Camelo, tem a honra de ter um samba gravado pelo tio, Amendoeira, samba-canção triste e leve, com um suingue sutil que não faz feio em meio a um repertório de clássicos como Minha Palhoça, samba de bossa de J. Cascata no qual divide os vocais com outro cantor especial, o baterista Wilson das Neves, e Cabelos Cor de Prata, samba também triste, elegante e leve (mais para suspiro do que lágrima) de Silvio Caldas. Camelo mergulhou tanto no universo do tio que fez Amendoeira, inspirado em Salgueiro Chorão, samba de Durval Ferreira gravado no primeiro LP de Bebeto, e que também é uma “conversa” com uma árvore.

Além de dar uma música para o tio, Camelo trouxe para o disco a juventude, nova geração da música brasileira. É gente como o produtor Kassin (produtor dos discos do Los Hermanos, do CD de Caetano Veloso e Jorge Mautner, do trio com Moreno Veloso e Domenico Lancellotti), e as cantoras Thalma de Freitas (filha do pianista Laércio, que divide com Bebeto os vocais no samba sincopado Pode Ser?, do especialista Geraldo Pereira e de Marino Pinto) e Nina Becker (com quem canta Beijo Distraído, de Durval Ferreira e Regina Werneck), ambas da Orquestra Imperial.

- O disco na verdade tem três partes, explica Bebeto. - Tem o que ouvi na infância, o que toquei na juventude e o que será meu futuro, que é trabalhar com essa turma nova.

O que Bebeto ouviu na infância: os velhos sambas de Ataulfo Alves (aqui a obra-prima Infidelidade), Benedito Lacerda (Sabiá de Mangueira) e J. Cascata (Minha Palhoça).

O que Bebeto tocou na juventude: os sambas de seus colegas de bossa nova como Durval Ferreira (Porque Somos Iguais e Beijo Distraído) e suas próprias composições, como Gazela, anteriormente gravada pelo Tamba Trio.

Um momento muito especial do disco é a estréia de um compositor, um tal Luiz Castilho, que tem seu samba de breque cheio de bossa Porta de Cinema, cantado por Bebeto em duo com Camelo. Sobrinho e tio se reúnem para celebrar Luiz, irmão de Bebeto, avô de Camelo, compositor inédito e prolífico, já falecido, e de quem Camelo sabe tudo e pretende aos poucos revelar.

A Vizinha do Lado, samba cheio de balanço e picardia de Dorival Caymmi, com aquela genialidade do compositor em fundir letra e música (a vizinha “balança” na letra e a música “balança” junto), abre o disco, serve como senha do que vai se ouvir adiante e, mais do que isso, mostra toda a inventividade de Bebeto na divisão rítmica, revela todo o suingue do seu baixo elétrico e a bossa do trio que forma com Laércio e Ivo.

Simples e musicalíssimo como Bebeto, o disco Amendoeira é, por muitos motivos, histórico e revelador. E além de muito bom demais de se ouvir. Tentem parar...


TEXTO DE HUGO SUKMAN
Faixas
01 Vizinha do Lado (Dorival Caymmi) 3m02s
02 Sabiá de Mangueira (Bendito Lacerda / Erastófenes Frazão) 3m36s
03 Ora Ora (Almany Greco / Eduardo Gomes Filho) 2m36s
04 Infidelidade (Ataulfo Alves / Américo Seixas)
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4m40s
05 Beijo Distraído (Durval Ferreira / Regina Werneck) participação: Nina Becker 4m17s
06 Amendoeira (Marcelo Camelo)   3m41s
07 Minha Palhoça (J. Cascata) particpação: Wilson das Neves 2m53s
08 Porta do Cinema (Luiz Souza) participação: Marcelo Camelo   2m35s
09 Pode Ser? (Geraldo Pereira / Marino Pinto) participação: Thalma de Freitas 2m40s
10 Cabelos Cor de Prata (Silvio Caldas / Rogaciano Leite) 4m06s
11 Gazela (Arlette Neves / Bebeto Castilho) 4m00s
12 Porque Somos Iguais (Durval Ferreira / Pedro Camargo) 3m45s
Ficha Técnica
Produzido por Marcelo Camelo e Kassin
Arranjos e regências - Laercio de Freitas, exceto Beijo Distraído e Cabelos Cor de Prata, por Gilson Peranzzetta, e Gazela, por Alberto Chimelli.

Gravado por William Luna Jr. no Cia dos Técnicos em janeiro e fevereiro de 2005 e mixado por Edu Costa no estúdio ECO em setembro e outubro de 2005.
Assistentes - Felipe Magrinelli, Flávio Neto, Mauro Araújo, Douglas de Souza e Felipe Medeiros
Produção executiva - Alex Werner e Simon Fuller
Assistente de produção (Biscoito Fino) - Paula Novo
Projeto gráfico - Arthur Fróes
Fotos - Joaquim Nabuco (abril de 2006)

UMA REALIZAÇÃO BISCOITO FINO
Direção geral - Kati Almeida Braga
Direção artística - Olivia Hime
Coordenação de produção - Joana Hime

Texto de Caetano Veloso
É ainda com os olhos cheios de água que começo a escrever estas linhas sobre o disco de Bebeto. O cantor bissexto do Tamba Trio, que tanto nos maravilhava quando fazia uma aparição, e de quem desejávamos ouvir um album inteiro, realiza agora nosso sonho de adolescência com décadas de atraso mas, paradoxalmente, no tempo certo. E sua voz de hoje (quando eu próprio já tenho os cabelos cor de prata) é tão adolescente quanto éramos Milton, Gil, Gal e eu quando o ouvíamos pela primeira vez.

A maturidade só reafirmou as qualidades inigualáveis do seu estilo: total ausência de ansiedade, desdramatização absoluta sem perda da poeticidade, imaculada naturalidade no trato com as notas musicais. O canto "cool" tem nele o exemplo mais perfeito que se possa imaginar. E é significativo que ele aqui comece com A Vizinha do Lado, um Caymmi típico do gosto bossanovista, e surpreenda com uma versão destilada de Infidelidade, um samba tão longe da bossa nova quanto é possível a um samba. Isso depois de passar pelo Sabiá de Mangueira. Seja nesses extremos, seja nos centrais Ora, Ora e Minha Palhoça (com o contraste de Das Neves confirmando tudo), seja nas belíssimas Beijo Distraído e Amendoeira, ele canta como flautista e como contrabaixista, como poeta simples e sábio calmo. A pureza da alma desse artista santo se revela em musicalidade virtuosa mas despojada. As mudanças que ele faz nas letras de algumas canções não parecem ser intencionais mas são conscientes: arredondam os sons das palavras para em relação ao seu fraseado – e trazem um traço de autobiografia, na medida em que sugerem que ele as cantava desse modo desde a mocidade.

Milton Nascimento e eu sonhamos levar Bebeto a fazer um disco assim. Mas a juventude e o desembaraço de Marcelo Camelo foram mais adequados. Camelo também é mais próximo de Bebeto (biológica e musicalmente). Nossa gratidão (acho que posso falar por Milton também) é maior do que nosso ciúme. Este é um disco histórico e sagrado. É necessário ouvi-lo repetidas vezes. Para aprender e para purificar a alma.

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