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Apresentação |
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Primeiro é preciso deixar claro o que Tempo Caboclo (lançamento Biscoito Fino) não é. Não é uma versão jazzística da música de concerto brasileira, como o nome de Mauro Senise poderia sugerir, muito menos aquilo que os americanos chamam de “crossover”, ou seja, músicos de concerto indo buscar no repertório popular material para seus discos e recitais. Se se fosse escolher uma palavra que definisse todo o admirável projeto talvez a ideal fosse esta: interação.
O que Mauro Senise, Jota Moraes e seus colaboradores pretenderam – e certamente conseguiram – foi caminhar com pés firmes mas cautelosos sobre peças do repertório clássico e semiclássico brasileiro, resultando disso um dos mais elegantes e expressivos CDs instrumentais produzidos por aqui nas últimas décadas, pouco importa que se o rotule de erudito ou popular. Só não se diga que é jazz, muito menos “crossover”.
O que temos são músicos de enorme talento interpretando ao seu modo alguns dos nossos mais representativos compositores, fazendo isso com reverência, mas sem submissão; com liberdades, mas sem transgressões; com inventiva, mas sem interferir no clima com que cada uma das obras partiu das mentes e corações de quem a criou. É o grande encanto do CD. Do Padre José Maurício, nascido no terceiro quarto do século XVIII, ao “jovem” Ernani Aguiar, esses compositores que fizeram a música do Brasil existir, muitas vezes saltando das serestas, dos terreiros e das rodas de choro para as salas de concerto, são devidamente revisitados, ou melhor, eternizados neste CD.
Tomemos logo o exemplo de “Episódio sinfônico”, uma preciosidade escrita em 1898, pré-villa-lobiana portanto, que já antecipa o respeito com que os músicos se entregaram aquilo que chamamos acima de clima. Faz acreditar que a música brasileira já nasceu assim, serena, delicada, sentimental, como se confirmará mais adiante, inclusive no mais ágil Choros No 1 que o próprio Villa-Lobos nos daria em 1920. Os dois temas da Suíte Antiga selecionados para o disco não são diferentes, sobretudo a ária à que a voz de Mônica Maciel empresta toques de sublime. Foi escrita por Alberto Nepomuceno em 1893.
Outro exemplo, este de como se cria sem se deturpar, está em Toada pra Você, que Lorenzo Fernandes compôs em 1928 para piano & voz e que Mauro e Jota repensam em termos de flauta em sol & vibrafone. Chorosa, como será Sospiro, tango brasileiro das primeiras fases de Chiquinha Gonzaga. Entre uma e outra, situa-se Tempo de Cabocolinhos que Aguiar incluiu em 1994 em seu excelente disco autoral Quatro Momentos No 3. O vibrafone de Jota também está presente, Mauro no sax, em outra transposição feliz: Ponteio, que Cláudio Santoro escrevera para cordas em 1953.
Não há desníveis ao longo das dezessete faixas. Chorinho Natalino, de Vieira Brandão; Spirto Gentil!, de Carlos Gomes; e Tuas Mãos, de Francisco Mignone, podem não estar entre as peças mais conhecidas dos três, mas enquadram-se perfeitamente no repertório e, outra vez, no clima. Como acontece com a reinstrumentação do andamento moderato do “Concertino para flauta, fagote e orquestra de cordas”, de Mário Tavares, editado em 1959; e três das “Quatro coisas para piano, flauta e cordas”, de Guerra-Peixe, de dez anos antes. A interação desses músicos de hoje, Mauro e Jota à frente, com os músicos de sempre é tão precisa que o projeto todo se sustenta sobre admirável unidade. Como se os compositores fossem muitos, como de fato são, mas sua música, pelo contrário, tivesse toda ela a mesma cara de Brasil.
Pensando assim, vale concluir com duas palavras sobre mais dois instantes que ocupam, em tempo e estilo, lugares distintos na musicografia brasileira. Um é a solene Abertura em Ré, do Padre José Maurício, composta provavelmente na virada do século XVIII para o XIX. O outro, a bela e melancólica Amargura, de Radamés Gnattali, gravada pela primeira vez como samba-canção em 1950. Por mais intensa que seja a massa orquestral da primeira, no magnífico arranjo de Jota Moraes, e por mais contida que soe a segunda, são ambas exemplos de que os talentos reunidos em Tempo Caboclo – autores e intérpretes – operam mesmo o milagre da interação.
JOÃO MÁXIMO
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Faixas |
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| 01 |
Epysódio Symphônico
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6m27s
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| 02 |
Ária
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3m40s
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| 03 |
Rigaudon
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4m54s
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| 04 |
Toada p´ra Você
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2m44s
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| 05 |
Tempo de Caboclinhos
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4m51s
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| 06 |
Sospiro
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5m50s
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| 07 |
Ponteio
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5m25s
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| 08 |
Spirto Gentil!
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3m29s
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| 09 |
Chorinho Natalino
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3m22s
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| 10 |
Moderato
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5m48s
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| 11 |
Amargura
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4m51s
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| 12 |
Prelúdio
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1m57s
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| 13 |
Improviso Sobre Movimentação
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4m20s
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| 14 |
Interlúdio
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31s
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| 15 |
Tuas Mãos
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1m56s
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| 16 |
Choros No 1 (Chora Violão)
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4m34s
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| 17 |
Abertura em Ré
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5m12s
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Ficha Técnica |
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Concepção - Jota Moraes e Mauro Senise
Arranjos, direção e produção musical - Jota Moraes
Produção executiva - Ana Luisa Marinho
Engenharia de gravação e mixagem - Rodrigo de Castro Lopes
Assistentes de gravação - Fernando Prado, Lucas Ramos e Flávio Santos
Assistente de mixagem - Lucas Ariel
Masterização - Luiz Tornaghi e Rodrigo Lopes
Capa - Felipe Taborda e Ana Fortes
Fotos e desenhos - Ana Luisa Marinho
Estagiárias de design - Luisa Baêta e Tatiana Tabak
BISCOITO FINO
Direção geral - Kati Almeida Braga
Direção artística - Olivia Hime
Produção - Pedro Seiler
Assistente de produção - Mila Freitas
Gravado nos estúdios Biscoito Fino em novembro de 2004.
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