
Aos 11 anos, quando descobriu que seu avô se chamava Pixinguinha, Marcelo Vianna tocava bateria na União da Ilha, já gostava de cantar e tinha intimidade com composições como Carinhoso e Lamento.
Ator - sobretudo de musicais - cantor e compositor, lançou o CD Teu Nome, Pixinguinha, em que faz uma releitura da obra do mestre, na opinião do estudioso Sérgio Cabral, “uma das melhores sínteses já feitas das centenas de músicas deixadas pelo grande Pixinguinha”.
Marcelo tem planos de editar toda a obra do avô e também continuar gravando suas próprias composições, sem abandonar o teatro, que estudou no tablado da CAL. |
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Discografia de Marcelo Vianna na Biscoito Fino |
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Entrevista |
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Aos 11 anos, quando descobriu que seu avô se chamava Pixinguinha, Marcelo Vianna já tocava na bateria da União da Ilha, gostava de cantar e tinha intimidade com composições como Carinhoso, Rosa e Lamento, que ouvia nas serestas que frequentava com a mãe. Se não conheceu Pixinguinha em vida, Marcelo encontrou-se com ele através da música, e neste primeiro CD solo, Teu Nome, revisita parte do repertório daquele que foi uma dos maiores e mais sofisticados compositores brasileiros. Teu Nome é o primeiro passo para uma revisão da obra de Pixinguinha.
Como você começou a cantar?
Com um grupo vocal. Fiz parte de dois, o Zinziver, com Mauro Perelman na direção musical e a Mariana Leporace. Depois tive uma rápida passagem pelo Maitê-Tchu. Comecei então a fazer teatro e daí para os musicais foi um pulo. Participei , entre outros, do Teatro Musical Brasileiro 2, Pianíssimo, Samba Valente de Assis, Elis Regina e Clara Nunes. Produzi também um musical sobre meu avô, em 94.
O ator sempre correu paralelo ao músico?
Sim. Especialmente em teatro musical. Devo ter feito somente umas duas peças que não eram musicais.
Você fez curso de teatro?
Fiz Tablado e depois me formei na CAL, com Amir Haddad. Trabalhei com Amir muito tempo. Foi quem dirigiu o musical do Pixinguinha que eu produzi. Paralelamente desenvolvi minha carreira de músico e de cantor em grupos vocais. Porque cantor de teatro é outra coisa.
Seu pai também é músico?
Era. Hoje em dia faz outra coisa. Tocava piano e cantava.
Foi Pixinguinha quem ensinou a ele?
Um pouco. Depois ele fez sete anos de Conservatório. Era fera. Meu avô não estudou tanto assim, era mais autodidata. Meu pai conta casos como o dia em que estava estudando Chopin, e lá no alto da escala, ouviu Pixinguinha gritar da cozinha: ”É bemol, Alfredinho.”
Você também foi influenciado pelo seu pai?
É uma história curiosa, porque meus pais se separaram quando eu tinha um ano e pouco. E minha mãe optou por não me deixar conviver com meu pai. Ela se casou logo depois e foi seu marido o pai que conheci e que me criou. Curiosamente, foi quem me introduziu na música. Ele tinha muitos discos de samba e me incentivou.
Você já sabia que era neto do Pixinguinha?
Só fui saber desta história aos 11 anos. Desde os seis eu questionava meu sobrenome. De tanto insistir, aos 11, minha mãe resolveu me contar a história verdadeira: “Seu nome é este mesmo, seu pai se chama Alfredo da Rocha Vianna Neto e seu avô é Pixinguinha”.
Você não caiu prá trás?
Caí prá trás e um mundo maravilhoso se abriu. Eu já frequentava serestas com minha mãe, onde ouvia Carinhoso, Lamento e Rosa, com cantores soltando o vozeirão. Eu, desde pequeno, não gostava desta forma de cantar. Admirava, respeitava, mas não era a minha onda. Gostava de cantar mais suave. Quando soube que era neto desse monstro, a coisa começou a tomar um vulto de verdade. Foi como se, agora, tivesse um passaporte para começar a desenvolver aquilo que eu vinha fazendo.
Com uma responsabilidade muito maior.
Ainda bem que eu não me tornei saxofonista ou flautista. Conhecendo meu pai, pude ver fotos, partituras e tudo o mais. Alguns anos depois comecei a fazer teatro e conheci os músicos que estão comigo até hoje. O Caio César, arranjador do disco, eu conheci no musical “Samba Valente de Assis”, sobre Assis Valente.
E o arquivo do seu avô. Você pretende fazer outros trabalhos sobre ele?
Em 93, quando tive a idéia de produzir um musical com o repertório de Pixinguinha, comecei a pesquisar na casa do meu pai. Há dois anos foi tudo levado para o Instituto Moreira Salles, onde está guardadinho, sendo digitalizado e organizado. Estudei as partituras para ver quais poderiam receber letra.
Você achou muita coisa?
Muita. Quando tive a idéia de produzir o musical, pedi a meu pai para segurar o material todo e pensarmos com calma no que fazer.
Você usou alguma música inédita de Pixinguinha no musical?
Não, somente uma semi-inédita, Os Home Implica Comigo, uma parceria dele com Carmem Miranda. A partir daí, quando constatei o bom resultado do musical, muito aplaudido e bem de crítica, comecei a amadurecer a idéia de me tornar um cantor solo.
Você esperou oito anos, desde o show, para gravar o primeiro CD, uma homenagem a Pixinguinha. Quantas músicas são inéditas?
Cinco: Samba de Gafieira, Teu Nome, Meu Sabiá, No Terreiro do Alibibi, afro-samba com letra de Gastão Viana, letrista de todos os afro-sambas do meu avô, e Bianca, uma valsa que já tinha letra em espanhol do E. Andreoni. Pedi ao Paulo César Pinheiro que letrasse as outras três. Ele é um grande poeta, entendeu e entende a atmosfera do meu avô. O que mais me deixa feliz nesta história toda é que mesmo não tendo convivido com Pixinguinha, fui me encontrar com ele através da música. E acho extremamente importante, não só para mim mas para quem ouve o disco, constatar a continuidade da família. O clã continua, a família está aí. E não comecei a transar música porque era neto do Pixinguinha. Já cantava quando tudo aconteceu.
Você pensa em gravar um CD instrumental do Pixinguinha?
Não.
As musicas continuarão inéditas?
Penso em fazer, mas não como artista. Tenho um projeto enorme, de 10 CDs, com a releitura de parte da obra dele. Entre eles, discos só de choro, valsa, afro-samba, sambas de gafieira, trilhas sonoras para cinema, orquestrações populares, orquestrações sinfônicas. É muita coisa. Quando se fala em Pixinguinha, abre-se um vasto leque. Nem todas as pessoas imaginam que ele produziu tanto. Juntando as orquestrações com as composições, vai prá mais de duas mil obras.
Muitas inéditas?
A gente calcula que tem entre 80 e 100 músicas inéditas.
Quer dizer que Teu Nome é o primeiro passo para se ouvir a obra de Pixinguinha com novo olhar? Exatamente. O disco tem arranjos modernos como acho que ele faria se estivesse vivo. Arranjos ousados de acordo com a característica dele. Esta releitura é para os jovens. Como Pixinguinha já era moderno na época dele, foi difícil fazer com que uma música soasse como nova. Rosa, por exemplo, foi uma valsa gravada pelos maiores cantores. Até o Orlando Silva gravou. Como fazer para soar nova?
O que você fez?
Fiz três cellos e voz. Jacques Morelembaum fez o arranjo e tocou os três cellos. Você escuta e constata que é erudito, é popular e é Pixinguinha. E, acima de tudo, brasileiríssimo. |
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